a casa real desarruma finalmente a mala de viagem
sou um gato menos estranho. arranho-te com a mi(nh)a alegria e com a mi(nh)a ironia.
23.1.10
A KIND OF
ENGOLIR IMAGENS E ATIRÁ-LAS AOS OLHOS. PARA QUE VEJAM. OS ELEMENTOS DO POEMA. ODE ÀS 21 GRAMAS DE ALMA LHASA
12.1.10
22.12.09
suspensó(RIO)
Desfeito o nó, espalharam-se pelas terras húmidas os vestígios alados.
Na tentativa de recuperar a forma – essa inquieta permanência – os joelhos revelaram a sua transparência.
Foi nesse lugar que me quedei, escutando-o:
- O contorno;
- A ruga;
- A ferida.
Qualquer coisa de sideral explodia-se em fumo:
A memória trazia em braços um pirata, um barco e uma vela,
Coisas, por acaso, simples,
Contrariando o espectro dos factores,
Destes, cito os nomeáveis:
Uma cortina de mulher, sete ossos de um penedo, um baloiço estagnado,
uma criança de bigode ferrugento, mãos acres tocando um violino (um som estridente rasgando penínsulas).
Voltar a um lugar é sempre desaparecer.
Um catálogo pode manchar para sempre uma memória,
Cingi-la a nada.
A concepção é moldar barro e esperar maturação.
Esta plasticina que me caiu por engano in personna multiplus difusus,
Contesta a permanência e rói com o esqueleto um plano mutável,
Convoca para a cerimónia um apego de longe.
O coração está cheio, transborda,
O líquido bebe-se mas não evita o granulado,
Recua do palato, condensa-se nuvem e chove.
A inevitabilidade de um caco é bela:
Repara na poética harmónica. Emociona-te.
No entanto, sem o velho, é vazio o som.
O velho chora e eu choro com ele,
Enchemos uma garrafa e desenhamos ondas,
Este mar é um improviso para a nossa dor.
Nesta pauta deixo tudo quanto herdamos.
É um poema mas devia ser gente e andar pela rua,
Ter pernas falantes e estímulos para a luz.
É inútil esta perícia de pensar,
Se esquecemos a música dentro da caixa.
Eu quero lembrar-me para sempre deste quedar de folhas,
Envelhecer primaveralmente, outonizando a neve.
A errância é lúcida.
Enal-TECE.
2.12.09
CEIA
Rasga em dois a mousse que fizeste com o medo do teu próprio fantasma,
é doce - a mousse com o medo- mas não gera cerejas, nem se arboriza clareira.
Essa criatura que te afaga, contrariando a correria dos ventos
pode ter segredos que te interessem,
repara como a rotativa serigrafia contraria a teoria,
transladando-se de palco para palco.
Traça -trança- um plano de fuga com fumo de chaminé antiga,
ali encontrarás ancestrais encantadores,
como um cântaro de barro
ou uma colónia de rosto,
gastos pela cinza.
Refugia-te nesse pequeno espaço que é um vale entre precipícios e crateras.
São nuvens mentais, dirias,
mas eu engaveto tudo e numero, só depois baralho.
Agrada-me o excesso de substância evasiva em mim.
Como vês esta beleza que agora mesmo avistei?
Descrevo-ta:
uma estrada estreita dividida em dois, onde não cabe mais do que um pardal e um gato,
cada um, em cada lado, fugindo, enamorados.
Prevendo a tua resposta, rabisco com algum cansaço este recado:
Dejecta-te desse prédio abaixo,
volta a subir pelas costuras dos alicerces,
faz desenhos nos vidros com o vapor dos teus dióxidos,
a estrutura da construção é um mi(N)to ocidental.
Vou regar-me de sol,
longe onde as plantas ordenam o crescimento das lagartas, em partos sem dor.
Padronizar envelopes de plasticina
como quem se nega a respirar duas vezes sob a quotidiana superficie de um quadrado.
Quantas imagens cabem no teu nariz?
Qual é o lado por onde começa a manhã?
Qual é o mar que um pirata escolheria para morrer?
Com que idade o coração cicatriza em borracha para pinchar mais alto?
Fico-me suspensa neste acorde impraticável.
A música consome-se do prato.
Na hora da ceia repartirei este pão pelo poema
sempre me encantaram as migalhas.
9.10.09
20.9.09
Divino -parte 3
analiso, verifico,
sou pragmática nas metafísicas de ti,
agrada-me segurar os frágeis cabelos de ar onde te sustentas, magnífico,
sempre diferente do poema-poéme.
Enquanto arquitectas possibilidades,
invado o teu reportório,
componho-te poemas,
foi de propósito que quebrei o copo,
queria engravidar qualquer coisa que não fosse a minha utopia,
tenho sete palmos de imaginação soterrados nas crateras longas dos olhos,
se parares mais tempo,
podemos converter esta tonelada num desafio de Pictionnary.
Páro-me de propósito,
o pensamento atarracado em minúsculas garrafas,
tenho um vinho e uma propaganda:
não sei vender nada que não me prove,
o vinho sabe-me de cor o palato,
é ele que me visita,
que não te engane:
o copo pega-me na mão,
o líquido derrama-se,
abro a garganta na página 33 onde figuram os rostos e os amantes,
depois durmo e sonho.
Lambo um livro, fujo de presenças vivas,
carrego-te, fugudio não veleiro,
não tens mar dentro e isso é uma coisa rara
nos homens atlânticos.
Duras escreveu-te as rotas,
geometricamente falhaste,
bastou compreenderes o somatóro das partes.
verifico-te o bolor das asas,
digo-te, quanto mais velho melhor,
desde que não definhes em filosofias autodissecantes.
Escreves-me porque me avanças,
ditos os nomes todos,
estas palavras continuam a ser tuas.
Onde guardaste o coração?
17.9.09
Divinus- parte II
tenho uma tragédia chamada coração,
podes rasgá-la, de nada se vale quando projectada para lá de mim.
O futuro é uma linha e uma vidente
e todas as possibilidades que se manifestam a partir daí.
Tenho um útero ferido,
um pássaro por remendar,
não me projectas para os ocasos solares,
sou de nascentes:
- Da primeira vez que vi nascer sol á tinha nascido e eu amei como se fosse meu;
- Da segunda vez que supus que nascesse desfez-se onda em espuma;
- Da terceira vez trazia tudo tão certo -até os colarinhos da alma - pensei que fosse a sério.
Rasga esse título,
somo-nos sementes de desertos,
a orgigem valeu-me sempre mais do que aquilo que
os homens não estão dipostos a dar-
estou cansada de dar....
11.9.09
DIVINO . parte 1
engolir vento para distrair o pensamento.
parece absurdo, mas antevejo um mundo poético e surdo,
não te arrelies se me vires a esboçar gestos para a lua,
no fundo sempre me cativaram os silêncios.
Conto a história de 2 homens que tiveram 3 filhos,
a partir daí fizeram palácios,
para mim tornaram-se inúteis as antiguidades,
eles eram presenças multiplicadas em beleza:
Um fez-se música, o outro fez-se vinho.
3.9.09
M -i- AU
não é por acaso que ardem brasas nos desejos.
este é um estado que se contempla sem sossegar,
levanta-se cedo, mas infrange a lei do silencio.
este estado grita-se, despe-se devagar.
devia trazer agarrado à saia um nome estranho,
um sobreaviso que acautelasse quem se aproxima.
tenho doenças nos dedos: escrevo demais.
é claro que pensando na minha situação de felino domável,
limo as garras e faço de conta(s),
somo os inversos e faço chapéus que cobrem telhados.
tento ser perfeita na arte de incendiar janelas e comer cinzas.
tenho tudo certo num calendario de improvaveis.
a minha unica malicia é alimentar-te,
trazer-te numa jaula que me bate dentro,
sorrir-te de esguelha para não te ver os dentes.
estou a curar a ferida do joelho,
antes de voltar a cair.
a cautela nunca foi demais.
M(i)AU, M(i)AU!
26.8.09
Cada menino tem a sua aldeia... cada menino tem a sua ilha...
TODOS OS RASCUNHOS. AS ESCRITAS QUE FICARAM SUSPENSAS NO TECTO DA CASA.
POEMA . o jogo do poema
MANIFESTO só porque sim, simples homenagem às composições que nos iniciaram nas artes de pensar nas evidências e repeti-las até à exaustão
esses trabalhos depois vão para montras e podem até fazer livros... não se sabe... nunca se sabe.
esta casa, como é a minha casa, é também um espaço de liberdade e coisas boas e más e ... um espaço do que as coisas lhe apeteçam ser. e isso é bom. e isso faz falta.
todos devemos ter uma casa.
Nota:
Evidências repetidas até à exaustão nas composições:
1. A Primavera é uma estação do ano.
2. O Dia do Pai é no dia 19 de Março. Eu gosto do meu pai.
3. Quando crescer quero ser ... porque ...
4. Nas férias diverti-me muito.
5. ...
Carta da cidade queimada
Recuperar a terra demorou tempos que não te sei contar, mas fez-se, porque o tempo tem tudo o que é relativo dentro: estica, estreita-se, dilata, esfuma-se. O tempo é uma doença que se cura com..... tempo.
Neste incendio também senti feridas as aves, as estrelas, as figuras dos museus. Ficou tudo devastado nesta última estação.
Enfim, não vim para causar confusão, vou sair de mansinho para que não me escutes. Conto-te o último relato desta embarcação quando já não avistar terra.
Silêncio que se vai cantar o nada.
25.8.09
Falhar (so glad to see you . Hot Chips)
aconchega as pedras da rua.
dá-lhes a docil tendencia dos astros
sob o céu de Verão.
Quando voltares a escrever,
diz-me desses dias onde estiveste, silencioso e atento,
a observar uma floresta crescer dentro da mão de um provável amor.
Esqueci-me -mais uma vez-
que o coração não se força a nada,
tentei amar um corpo plástico e perfeito.
todo ele feito à medida do meu capricho:
enervava-me,
atirei-o às margens do vazio (donde nunca saíra).
Eu nunca pedi para escreveres poemas,
basta deixares um número para o qual possa ligar,
a noite tem picos de dor,
é uma febre estranha que me visita.
Posso ligar-te pela manhã?
Há pirilampos que não sucumbem na madrugada,
podemos procurar-lhes as ocultas belezas,
como essas que trazes debaixo de ti.
Vamos repetir tudo,
invertendo as cenas.
Eu farei de ti, acreditas?...
...repara como sou ineficaz
quando tento ludibriar-te..
nunca saí para um terreno que não fosse eu,
mesmo quando me reinventei.
Se amares a metamorfose que te conto,
poderemos criar melodias,
fazer poemas ou saladas,
comer gelados e pensar livre....
Agora calo o poema,
sei que te aflijo quando parto para metáforas sem
pré-aviso
(são 20 segundos de pura beleza,
qual droga tropical no meu delirante desejo de pássaro).
Quando voltares faremos tudo à tua maneira,
gostava de me experimentar em ti, assim,
inteira.
Ainda me vives,
se te ralho é só porque não vês o que eu quero que vejas:
os meus braços, as minhas pernas,
o meu umbigo,
todas as partes de mim.
Devias tornar-te atento à imobilidade.
22.6.09
1
rasguei-o para te dizer que do meu avesso,
avistas as palavras certas para compores em verso um sorriso
ou um barco retalhado em papéis dispersos
que sejam apenas ode de amantes
ou náufragos.
Quando voltares a passear nas montanhas do meu umbigo,
seguiremos com as mãos a rota das estrelas.
Ferirás a primeira dor,
para lhe causar medo,
mas de nada valerá
Serão tuas as caricias deste vento que me chega de empréstimo?
Serão tuas as formas que cavalgam a planicie horizontal?
Serão teus os sussurros dos passos invisiveis dos anjos?
Deixa-me ser dramática,
decorar-te o quarto com semblantes de sereias,
inventar-te um itinerário de amor.
Quero-te de braços inteiros semeados nos meus movimentos.
A tua sombra tem eco?
Porque te escuto se deixaste o quarto vazio pousado em cima da minha ternura?
E agora o que faço da minha ternura transformada tesoura?
Cortaste-me o coração à escovinha e ele nunca mais cresceu..
Mirrou e nem um pássaro lhe debica o rosado contorno.
Por isso deixei de te cantar
16.6.09
2
cortados na brusquidão da escrita.
As palavras não suavizam as veias,
arreliam-lhes o interior líquido.
dedico-me a dedilhar poemas vagarosamente.
trajavas como um rei pobre,
na cabeça uma coroa de galhos com sede.
A tua casa tinha pó e eu sorri,
porque era um resíduo antigo
Eu enviuvara de propósito,
para cercar com um círculo vermelho a tua varanda
e disparar-te o silêncio como uma laranja amarga-velha,
Não é nada disto que tenho para te dizer,
na verdade só faltei à tua festa porque me doía a dança
de te ver repartido nos passos dela.
O meu coração guarda um espelho por onde te reflectes e metes
e a narrativa que te memoriza ainda sabe que mentes para
me evitares triste.
tem música de violino ao fundo,
como um Atlântico transmutado música.
Tenho-te guardado num frasco transparente. mas sempre me danas
e confundes.
Dei-te das trovoadas apenas a sua revelação de luz,
anulei das estações, as insónias e os presságios.
Movi a terra dos teus sapatos,
que te desdenhava em surdina,
mas nada trazia vida ao pedaço morto de amor que me dedicaras
na estção do sol.
3 FERRUGEM
a ferrugem tem voz.
De nada vale duvidares da idade do coração.
Um coração também tem ferrugem.
Um coração também tem uma voz com ferrugem.
17.5.09
(Eras alto, porque eu te via alturas a partir dos olhos.
Eras rude, porque não sabias beber vinho sem destruir a estrada que te levava
seguro, de ti a mim)
Para que não duvidasses do barro
com que cosntruira os três palmos de mim,
cantei-te ao ouvido,
aquilo que era sede e chama,
aquilo que era eu.
Começava a contar-te a história pelo fim:
primeiro voei e só depois,
muito mais tarde comecei a andar.
Iniciar-me pássaro,
foi para os grandes mestres motivo de discórdia.
Teria de te dizer que comprei mais tesouras do que jóias.
Cortei as penas de ter asas
só mais tarde, arranquei com lâminas
a pena por não ter asas.
Sou inofensiva,
nunca matei galinhas
e tenho medo de insectos de carapaça negra
Alimento-me de movimento, basta-me biciclet"ar".
(continua...)
13.5.09
FRIO (difícil dizê-lo em voz alta)
O tempo é uma existência cheia de improbabilidades.
Nos ecos escutam-se
orações repetidas de tédio
e há quem caminhe pelo vício
de não se imaginar em amor confinado
ao luto de ser apenas dois.
Inventei-me num vestido
compilado em livro.
Na página 1 lia-se exacatamente a mesma coisa
do que na página 45.
Repetia-se o escrito na página 97
e de tanto leres as mesmas fotografias,
pousaste o livro.
De seguida,
pousei-me também num livro
e numa atitude de bucólica esquizofrenia,
inventei paisagem numa noite mais longa
do que eu.
Devoraste o tecido
para que a minha nudez te surpreendesse,
ou então foi só o indistinto desejo :
pousar corpo como quem pousa cansadas asas,
Se não fores capaz
de escutar
o enorme edificio de silencio
onde assentei as casas e os dedos,
revira de novo o meu corpo,
aponta-me para sul.
O norte,
constataram as nossas sedes diluidas numa só,
é uma estratégia pérfida
e a nostalgia é a acidez do coração.
Deixa que os meus cabelos recuperem a cor
do incêndio,
corpo queimado
a contraluz
num papel de parede colado
por improviso à porta de mim.
Sabe-me a romã este pêssego
que me chega fora de estação.
Não durmo mais do que cinco minutos
há muitos anos,
sinto uma dor que
me queima a intimidade.
Já não me revelo,
suspensa na fotografia por materializar.
No fundo, andava a buscar alguém
para amar,
alguém que fosse novo
e acreditasse na beleza dos pássaros.
mas como esqueci o código que sela a natureza
em castidade,
encontrei as sete magnólias transformadas em manequins
de gosto duvidoso.
percebo a distância.
Asa, casa,
derrubo a primeira parede
onde escrevera o teu nome
a tinta de água.
Aumenta o volume da música.
dança mais uma vez,
desliga o fluxo
que te leva nas avenidas do sangue alheio,
Vamos começar pelo lado prodigioso
do riso,
ouvir em repeat o tema
que cobre de amor a pele.
A água seca a cor
inebriando de espectros luminosos
a tua palidez.
visto a milimétrica distância
tens a aparencia de um anjo
derrubado em jogo de matraquilhos.
Estende de novo o tabuleiro,
joguemos o corpo a dinheiro,
ou a qualquer coisa de fútil
que não faça poemas quando se ausenta,
cansa-me esta tardia melancolia,
a poesia serve-se fria?
(...)
11.5.09
4
Quando acabou de arder,
disseste:
- repara na luz que se solta do corpo ocre
do silêncio escuro.
Nao te vejo,
agora que ardeste o tempo inteiro
tenho doente o lado felino,
o escuro não é uma metáfora,
é o meu corpo dentro de água.
Nado e o seu feminino imediato:
Nada é o que fica a ocupar
um território de sangue.
A doença do corpo é milenar.
5.5.09
Dance
Nunca soube o que fazer de teu corpo,
tinha desajeitado o desejo,
ao ver-te inteiro e desnudado,
primeiro a pele,
depois o sangue,
depois a guelra e o peixe.
Eras tantos!
Ora terra castanha,
ora transparente água de beber,
ar inviolável de tocar,
casa insonora,
fogo que queima baixinho.
Viesse o poeta
e falasse de tudo o que arde sem se ver,
e então talvez te tocasse no ombro esquerdo.
sempre te entranhei a melodia.
Já eras antigo
antes de me nascer corpo
e violinos.
Como te dizer dos teus dedos caídos
nos meus sentidos?
Segurei-te com pregadeiras
às raízes dos meus cabelos
para que crescesses comigo.
Nunca mais tesouras!
Nunca mais cortar-te!
Foram 33 metros de longa cabeleira
multiplicados pelas vísceras,
pelas guelras oxigendas,
pelo mordomo da casa,
que procurava nos escombros da terra
um limoeiro depenado
e rabanetes cor de ferida a sangrar.
Tu rias a bom rir,
que é uma forma de te dizer que o teu riso
-O TEU RISO-
me fazia feliz.
Haveríamos de ver juntos as Índias,
primeiro um caril saboreado ao sol,
depois um deus de papel incendiado
e um gelado de manga para finalizar.
Falo-te de coisas banais,
como quem te diz,
que contigo,
é tudo sempre em primeiro.
Não há corrida nem desvio.
Haverias de fotografar-me
num piscar de olhos.
Eu, vermelha, queimada de sol,
e mais uma vez o teu riso,
a tarde tão cheia
quedados em nós,
de espantos muitos.
28.4.09
De nada a tudo
Escrevi palavras,
a marcador amarelo,
num livro que não voa continentes.
É pena...
devias saber
como morro,
mas não te sei falar
como se me morre uma alma.
a recomendação foi sempre a mesma:
a melancolia, menina,
há-de destruir-lhe o fígado.
Aceno que sim,
bebo o vinho,
repetindo-o nos gestos.
Afinal, esta era a dança
e dança-se sozinha.
Estar numa ilha é
como estar em mim, afinal.
Mas tu,
incandescente veleiro,
regressa nas ondas
quando te apetecerem as vagas.
Não tenho minutos,
nem guardo moedas para a semanada,
consulto videntes,
só por um acaso.
Não me destruisse a arte
de estar só,
e cantava-te qualquer coisa
mais colorido.
Não posso.
Não sei.
Não quero.
Penélope a cozer
velas de navio,
num cais de fantasmas,
gastronomia inútil
servida à lua.
Era assim que o livro escrevia:
Conhecer o poeta
era melhor do que conhecer o poema.
Eu que sou dada a orações,
voodoos intermináveis,
onde o ritual é o meu próprio corpo,
semeio o poema,
na esperança que nada nasça,
semeio outro
e outro
e outro
e outro.
Sou terreno de sementes.
Que não me nasça o livro,
antes de ti.
Quero ter tempo para te escrever
inteiro,
mas o tempo envelhece
mais depressa os dedos
do que o rosto.
Chegaremos por fim
ao destino,
uma casa que não precisa de
poemas,
um mar que não precisa de navios.
Confundidos na paisagem
do corpo sem leitura,
diremos então nada.
Será tudo.
20.4.09
L'AMOUR LA FOLIE
reguei de sol
a raíz do teu sapato,
para que iluminado o caminho
seguisses
o endereço indicado
no verso
do meu sorriso.
Primeiro esquerdo era a morada
e chamava-se no bairro:
coração.
Rasguei a madrugada,
as 333444 lágrimas
que encheram o livro
dos homens em atlântico.
Soletrei a letra
do teu nome.
Soprando-lhe assim:
L (éle.)
U (úu!)
Z (zzee....)
Teci-me toda de branco,
outra vez,
mais uma vez,
quantas vezes?
para que me confundisses
a pele com a sede:
a sede de beber
a sede de sentar
a sede de lugar.
Tenho-te num segredo
que partilhei ao mundo inteiro.
Explico-te a manobra:
Escrevi na parede do céu
o teu corpo em nuvem
arrastando-te sobre os azuis,
.............................VELOZ!
formavas-te
ora pássaro,
ora castelo,
ora abstracta figura,
filosofia do nada,
vinho sem copo,
constelações de corpos,
compondo as estrelas,
substituindo as estrelas,
renovando os nomes das estrelas:
Capricornius lucidus,
Corpis burlescos,
Travessias infinitus.
Este poema tem uma música
e esta música tem-te a ti.
Somos agora os três:
O ramo - o eu
A folha - o tu
A ave - a música
Espreitamos por esta janela
que espreita o
melhor de ti-mim-ti-mim.
És bonito quando (en)cantas
a ternura que me despe.
Nestes mo(vi)mentos,
cultivo novamente o jardim.
São frágeis as flores,
não pises,não negues.
Deixa que o jardim se alargue,
quanta força inútil existe numa morte breve?
Depois trataremos por tu
o coração,
o teu, mais alto,
avistará as fronteiras,
o meu, mais baixo,
avistará o canto dos teus olhos.
Autoplastia marcada,
sempre que dilacerarmos
o malmequer do jardim.
Nenhuma Primavera será demasiada
para que te chegues
de malas e cotovelos
às pétalas dos lençóis.
Teremos tempo
para contar do que vimos,
do que vemos.
Abres o livro?
Conta-me de novo,
pela primeira vez,
em novo,
a história:
Era uma vez.....
19.4.09
FRIO (difícil dizê-lo em voz alta)
O tempo é uma existência cheia de improbabilidades.
Nos ecos escutam-se
orações repetidas de tédio
e há quem caminhe pelo vício
de não se imaginar em amor confinado
ao luto de ser apenas dois.
Inventei-me num vestido
compilado em livro.
Na página 1 lia-se exacatamente a mesma coisa
do que na página 45.
Repetia-se o escrito na página 97
e de tanto leres as mesmas fotografias,
pousaste o livro.
De seguida,
pousei-me também num livro
e numa atitude de bucólica esquizofrenia,
inventei paisagem numa noite mais longa
do que eu.
Devoraste o tecido
para que a minha nudez te surpreendesse,
ou então foi só o indistinto desejo :
pousar corpo como quem pousa cansadas asas,
Se não fores capaz
de escutar
o enorme edificio de silencio
onde assentei as casas e os dedos,
revira de novo o meu corpo,
aponta-me para sul.
O norte,
constataram as nossas sedes diluidas numa só,
é uma estratégia pérfida
e a nostalgia é a acidez do coração.
Deixa que os meus cabelos recuperem a cor
do incêndio,
corpo queimado
a contraluz
num papel de parede colado
por improviso à porta de mim.
Sabe-me a romã este pêssego
que me chega fora de estação.
Não durmo mais do que cinco minutos
há muitos anos,
sinto uma dor que
me queima a intimidade.
Já não me revelo,
suspensa na fotografia por materializar.
No fundo, andava a buscar alguém
para amar,
alguém que fosse novo
e acreditasse na beleza dos pássaros.
mas como esqueci o código que sela a natureza
em castidade,
encontrei as sete magnólias transformadas em manequins
de gosto duvidoso.
percebo a distância.
Asa, casa,
derrubo a primeira parede
onde escrevera o teu nome
a tinta de água.
Aumenta o volume da música.
dança mais uma vez,
desliga o fluxo
que te leva nas avenidas do sangue alheio,
Vamos começar pelo lado prodigioso
do riso,
ouvir em repeat o tema
que cobre de amor a pele.
A água seca a cor
inebriando de espectros luminosos
a tua palidez.
visto a milimétrica distância
tens a aparencia de um anjo
derrubado em jogo de matraquilhos.
Estende de novo o tabuleiro,
joguemos o corpo a dinheiro,
ou a qualquer coisa de fútil
que não faça poemas quando se ausenta,
cansa-me esta tardia melancolia,
a poesia serve-se fria?
(...)
15.4.09
5. Requiem aeternam dona eis
passaram muitos poemas
numa tecla só,
esquecer-te valeu-me
mais de vinte tabernas,
copos de vinho doente,
amantes como remédios de ocasião.
Eu despejei-te inteiro
no meu sangue.
quando bebias de mim,
atordoado e confundido,
prometias-me a eternidade.
Renovamos a casa,
para que coubesse
O teu sabor, sabe-me a mim...
eu comprava-te ouro
para dourar-te o desespero,
podemos ser um,
ou ser finalmente nenhum?
passeios de moribundo
sob um rio de peixe morto.
pintei-te nos meus olhos,
um frasco de rímel
é certo que assitir às nascentes:
-do dia,
-da sede,
-do desejo
com o teu calor preso ao suor,
fazia imaginar-te eterno.
Um corpo amante de outro corpo,
adquire na realidade
o tamanho certo.
Nunca confiei nos teus braços
alongados aos meus.
Por onde atravessar-te,
se nunca me chegavas inteiro?
Eras um homem em ponte quebrada.
Sim,
a terra que avistávamos
na lonjura do outro lado,
prometia colheitas férteis,
de sol a sol.
Como me julgavas sempre
em parte incerta,
tropeçavas violentamente
no
joguei-te num casino,
mas tenho azar ao jogo,
perdi-te para dentro de ti.
Como te chegar ao silêncio?
Se me perguntares,
se estou feliz,
respondo-te a sorrir
que não,
para que o teu dia empov
Tempo preciso . 1:41 .
Espera.
Ouve:
1:41
Um minuto
e quarenta e um segundos de tempo cronometrado,
e só agora começo a falar-te.
Este tempo em precisão,
elegeu-se belo,
e é um tempo certo:
1:41
Podemos escutá-lo sem que desapareça,
neste tempo não consta o que dista o universo.
É um fragmento sonoro
atirado ao cosmos,
superfície plana e horizontal.
Tinha um raro vício:
repetir Lhasa.
Depois a música era outra,
porque quando olhava os livros
abria-se em pautas,
mirando-se -mirando-OS-
nesse desfile de almas.
Compunha-se em vozes:
esse coro gritava-lhe as entranhas.
Dizia-me, por exemplo:
Hoje não consegui dormir,
al berto não se calava,
por isso adocicamos a noite,
enquanto pintávamos a parede em azul visível.
Como não me cabia dentro,
derramei-me inteira ao delírio.
Seguras-me à chegada?
Ela lia como quem canta,
que falta lhe faria a música?
É nesta parte que te digo
do silêncio.
Aprendi-lhe a forma,
ao ver como ela morria
cantando-se em recortes
respirando ar dos livros.
Repetindo.
Repetindo.
Tudo igual.
Nada igual.
1:41,
é o tempo preciso onde as extremidades se encontram.
eu,
ela,
a parede azul de Sines em branco,
o comboio por onde desfilam estas
e outras paisagens.
Sabias que morri durante
a noite?
Velaram por mim os insectos
e as pestanas,
depois havia um filme de um rapaz que lía.
De tanto ler
transformou-se num mito
e nunca mais falou de si.
Quando se nomeava,
visitavam-lhe as figuras evocadas
nas leituras.
De resto o filme era inútil,
não fosse uma mulher amarga
que me fazia lembrar cetim em pele enrugada.
Enchi a mala de viagem,
não estranhes se te parecer um envelope.
Afinal,
cabe-me a vida numa carta.
Rasga as folhas finais,
e cola as partes dispersas
onde te apeteça estar,
seja terra de vida
ou terra de morte.
Saberás melhor de mim assim,
em retalhos,
colada por aí.
Que não te importem as palavras cortadas
ou sem leitura.
Que não te chateie o disco riscado,
pousado em todo o lado,
girando-se aleatóriamente.
1:41,
1:41,
1:41,
é o tempo preciso,
onde no meio do coração aberto,
construo a casa,
a morada,
o abrigo.
Estarei lá.
É um aviso para esqueceres que existo.
14.4.09
Um poema em tamanho de noite . Em púrpura o teu corpo arde.

para que nada faltasse
marcando a noite funda
na tua boca.
escrevias demasiado
e um poema falava-se,
autónomo de ti.
que atiravas precipicios
em formas escritas.
Parceiros tinhas mais de mil,
cada um amante,
um amor ,
um avesso.
Rasgaste a saia da mulher que te passava na rua,
quero-te nua, quero -te inteira,
quero-te minha no espaço de um poema.
...
a mulher fugiu-te,
porque te preferia sólido,
quente,
não vestido nesse corpo frio
onde escrevias poesia,
como quem corta a pele,
na ilusão de revelar o vazio.
depois,
sem mulher
e com uma saia de ausência
pousada na cadeira vermelha,
escreveste outro poema.
a sala cheirava a incenso,
era insuportável e encantatório.
o poema atravessara-se na mesa,
era urgente escrevê-lo.
Agarravas, frenético, a matéria dispersa
e num acto cirúrgico
dissecavas metáforas.
é engraçado pensar que antes,
muito antes
de veres a mulher nua,
já lhe conhecias
a curva do desespero,
a cintura indefinida,
as unhas incertas,
sem verniz
e sem cuidado.
Escreveste o poema inteiro,
durou-te uma garrafa
e alguma tinta.
Ao nascer do dia
enviaste uma carta para mil moradas.
Eram mil mulheres
no teu poema.
Liam-no.
Comoviam-se.
Incomodavam-se.
Eram mil mulheres
e o poema.
vestiram-no como quem veste uma saia,
taparam a nudez
para sair no dia.
E o poema estava em cada uma,
e agora estavam inteiramente nuas,
mas ninguém reparava na subtil diferença
de ver um corpo aberto no espaço de um poema.
E dentro das mil mulheres,
o seu silêncio revelado pensava-se
em aflição,
tapando com a mão
o coração escancarado nos poros
do teu poema.
13.4.09
6. simples e duas vozes
10.4.09
White Chalk. PJ Harvey canta-se no vaso onde descreveste a arquitectura da tua casa

Na primeira noite em que te vi
8.4.09
7.
por ser teu.
Era assim que se falava de ti,
eu explico-te,
repara:
Não são os poemas, é o poeta. É o poeta que interessa
4.4.09
Água . Altamente biográfico, sob influência da chuva: Midnight Blue
Agora chove.porque chove
3.4.09
8.
pegar fundo na caneta,
dissecar pormenores.
O plano era este,
e era um plano morto
e era um plano vivo.
Era um plano
que às vezes ficava calado de angústia,
como quando se fala
para uma multidão
e a voz se apaga,
mesmo cheia.
Era um plano infantil
mas exterm
1.4.09
A Partir dos Equinócios de al berto . Sombra e Luz. Gomos de Laranja.

Partem-se os equinócios,
a duração em poema, de Peter Handke,
ressalta na planície.
O poeta é meu guru, tudo me faltará.
31.3.09
Escreve na parede do meu peito . (ESTADO: líquido)
"As coisas, por exemplo, começavam todas pelo princípio e acabavam no final. Por isso, nesse tempo, para ele tinha sido uma grande surpresa, e nunca mais as esquecera, umas declarações do cineasta Godard onde dizia que gostava de entrar nas salas de cinema sem saber quando é que o filme tinha começado, entrar ao acaso em qualquer sequência, e ir-se embora antes do filme ter terminado. Seguramente, Godard não acreditava nos argumentos. E possivelmente tinha razão. Não era nada claro que qualquer fragmento da nossa vida fosse precisamente uma história fechada, com um argumento, com princípio e com fim."Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento (Teorema, 2007)
29.3.09
BANG BANG
Vim dizer-te qua a rua ardeu
e o avô fez anos de morto.
Desapareceram-lhe os poros,
e já mal se lhe guarda o esqueleto.
A terra comeu-o,
mas um lírico diz-me que o corpo morto
germinou em jardim.
Na aldeia ninguém se fala,
o corpo cansa-se de espreguiçar murmúrios,
e depois com as ruas queimadas,
os pés ardem nos caminhos.
Na aldeia não se fala de pés,
mas era através dos pés que se falava.
Havia algo de encantatório nessa conversa que caminhava.
Que se caminhava.
Que se encaminhava.
Agora,
aninhados os pés em silêncio,
tornou-se difícil explorar outras geografias falantes do corpo,
do copo.
Foi por isso que esta carta
foi nascendo até se gritar.
Eu estava cansada
e parti a guitarra
contra o espelho.
A melodia reflectida,
a melodia despedaçada,
não imaginas como escureci.
Desde que a aldeia está calada
já não se sonha
a não ser que se boceje.
mas ninguém entende de bocas,
ninguém beija essa estrutura de carne feita para amar.
Meu amor,
com a guitarra partida
e os pés calados,
custa-me a chuva
que se cai em cinzento.
A água que me caíu dentro,
era devassa,
arrastou um livro
que tinha ilustrações de uma ilha
onde a boca falava,
onde a boca reinava.
Nada disto esteve para se dizer,
meu amor,
os dias são apenas dias,
quando o pensamento se cansa de se pensar.
Hoje andei a tarde inteira a correr atrás de um poema,
comprei-o por um valor que ele não tinha.
Era um poema de um homem que trazia outro homem dentro.
Quando segurei o poema na mão,
a mão escureceu.
Lavei-a com tinta,
voltou à cor que antes tinha.
Porque é um acto de amor. nota confessionária onde o poema reina devagar


23.3.09
LUME

Deixo que o LUME segure a minha mão.
O interior da mão -
imagino,
imaginamos-
é de nuvem que não te chove:
segura-te.
suspenso no tecto do coração
fotografas a rua,
eu não estou lá,
mas ouço ao longe o soletrar
de uns passos.
Reparo:
a vizinha é alta e esguia,
e ateia o fogo para limpar os móveis do jardim.
A noite, essa, pode esfriar no prato,
porque te distrais a contar
o tamanho de um ovo
e eu penso que é belo ver
como trabalham as tuas mãos.
Dizes que o labor
é precioso,
isso espanta-me,
desperta-me o improviso:
canto alto na rua
para que notes que me comovo
quando te expandes em minunciosas tarefas.
O lume está agora dentro
de casa,
a montanha diáfana enche-se de pássaros
que nomeias pela ordem das visões.
Abres o sol em gomos,
comemos o sol
e é bom.
Esse incêndio de luz
incandesce no sono.
Eu nunca soube se uma aldeia se compra,
ou se se pede de empréstimo
às criaturas e aos montes.
Mas sei que buscaria terra
e plantaria poemas nos vasos,
para que chegasses mais cedo
aos braços que já te moldaram mil vezes.
É noite agora,
as mãos pintam-te no rosto uma palavra
cheia como uma lua.
De manhã,
seremos três,
tu,
eu
e a voz citando al berto:
"quando acordares, e abrires a janela"...
21.3.09
10. POEMA (realmente) EM DOIS TEMPOS. UM ERA MANHÃ O OUTRO ERA DE NOITE (mas este poema é longo, procura-se terceiro)
enquanto a noite era o avesso do dia distante,
eu tinha
-finalmente-
percebido:
Mas como as histórias nem sempre têm voz,dedica-se a alma
,que é uma porção do ser, dedicada a causas mínimas de elevadas dimensões)
a descoser as linhas que atravessam
as redes.
São de nevoeiro e ardem.
Eu comecei este poema há mil anos,
eras tu ainda pequeno.
Visto à luz de palma da mão,
assentando a atenção nas tentativas de vislumbre,
confundia-te com uma linha
- dessas que traçam itinerários de riso e de perda.
Cosia-te então,
primeiro à rua,
para que os pés soubessem o caminho,
depois ao céu,
para que os olhos se abrissem em vôo.
(não acredito em ASAS. Faltam-lhes vocação para se humanizarem.
não consigo fazer nada com elas para além da prática de simulacros)
18.3.09
11.
última vez,
escondi-te o rosto
atrás de mim.
Agora ando com a tua sombra,
que é uma cara sem pernas,
preciso carregá-la nos ombros,
de um lado para o outro lado da rua,
e ás vezes são pesadas as linhas do
teu rosto,
nas linhas da rua
17.3.09
PEDRAS para sentar OU PEDRAS por assentar
onde podes sentar as
pedras.
Mais tarde, quando voltares a
passar pelo banco,
onde descansam as pedras
adormecidas de sol,
atira-as para longe,
tenta acertar no alvo!
Há quem pense que é uma mulher bonita,
mas não acredites.
Ela não acredita.
Podes escrever-lhe um poema sobre pedras
ou sobre lagos
ou sobre bacias que guardam lagos com pedras.
Ela preferirá sempre o poema que não escreveste.
Podes passar-lhe a mão nas pernas e nos pêlos,
podes ver como arranham,
podes ver como doem.
Não são suaves como sonhaste que seriam os pêlos da
mulher amada,
mas são pêlos e são os dela.
Esta mulher pensa que a estética
se resume quase sempre a um corpo que baile bem.
prefere bronzear livros ao sol,
que é como quem diz deixar os braços fora
da janela do corpo,
e deixá-los avançar,
seguros,
satisfeitos,
Das pedras, a mulher,
sabe de cor (e pela cor) o sabor
...e nunca foi o de sopa.
Fossem deliciosas as pedras
e bordaria com elas um coral.
As pedras são amargas.
As pedras são pesadas,
principalmente se carregadas nos bolsos
de um casaco que não se despe.
(e esse, tenho ouvido,
resguarda-se debaixo da pele,
longe dos toques
e das mãos)
16.3.09
VINIL VIL, VIL VINIL
não estou aqui para ler poesia,
fechou-se o cardápio,
volta quando a noite cair
do cimo de si onde se sustenta,
espalhada no chão,
confusa de estrelas e astros
assustados pela enorme queda
(chora mais quem cai primeiro,
é a regra do cosmos,
para que o último escute esse eco.
... não é uma questão de ego...
é uma questão de eco-eco-eco-ec-e-...)
Se preferes a lua cheia porque não
compras uma somente para ti?
Tu e a tua-lua-tua-lua.
Não me olhes com cara de mau,
sabes que não é assim que te vejo,
o reflexo é sempre o do outro
e esse já sabes, comove-me
provoca-me inquietude,
deixa-me os dedos calados-colados.
Deixa-me os dedos parados.
Enquanto o teu nome couber inteiro
no vinil antigo
e os Velvet disserem de ti
o que tu apagas,
este dia continuará a ter qualquer coisa de teu
-não sei se a luz, se o cheiro, se a impressão de te ver entre outros-
ou tu, aqui,
neste lugar arredondado
onde guardo mundo
em quadros sem telas.
15.3.09
EQUINÓCIO com demasiados parêntesis
De cinzento a cinzento penso a parede.
(a parede é uma matéria ingrata
quando se fala baixinho,
primeiro, gastam-se as palavras nos tijolos,
depois gasta-se a cor com o tempo que as palavras levam
a desenvencilhar tijolos e letras,
por fim, gastas pelo tempo,
as palavras desistem,
comem definitivamente a cor
e o silêncio tem o seu supremo reinado).
O teu silêncio quebra o corpo da flor
(passara horas a desenhá-la no jardim)
O teu silêncio mutila o lado risonho onde navega o segredo filosofal
Do fim para o pricípio as letras nunca mais se encontraram,
por isso este poema pode ser mau,
por isso este poema deve ser mau:
é como um corpo que não se entende,
pernas para o ar,
coração em vez de rins,
água inquinada como conversa que se matuta e não se diz.
Nem riso, nem rizomas,
fazem parte deste prato que serves com lágrimas sem sal.
(trago apressada o saleiro,
encho-te os olhos de sal,
não para salgar lágrimas
-eu sei que é uma perda de tempo salgar lágrimas-
mas para trazer viva a memória do primeiro
mar,
do primeiro sorriso
e do teu corpo horizontal a ocupar toda a visão da planície)
O esforço deve ser nenhum
quando a alma é empática,
(sussurra um sábio velho, um sábio chato, um chato velho!)
Mas na verdade,
eu penso que essa filosofia não me cabe dentro da cabeça,
escrevo-a de cor, mas sem salteados.
Não cabe o sapato nesse pé
tropeça, vacila,
é um sapato vazio caído na rua,
(fico triste quando vejo sapatos sem dono,
perdidos na rua.
Fazem lembrar gente morta).
Por fim,
dizes-me para colocar o saleiro num lugar onde eu não o veja,
um mar ido não deve ser evocado com estratégias de diversão.
Agora tudo sério, dizes,
Agora é a sério, dizes,
esfregando as mãos, confiante.
A tinta certa pinta a parede cor-de-laranja que me dedicaras,
já não tem laranjas, nem flores brancas em período de gestação,
é uma parede cinzenta
onde peregrina a melancolia que sabe de cor
o sabor do sal.
(Se este poema tivesse uma etiqueta seria: "EQUINÓCIO",
mas não sei porquê... sabe-me bem esse nome...
Esse nome cabe no sabor deste poema)
NOCTURNO. Nuno Júdice
11.3.09
Dizias.
não procures a lua onde ela não está, dizias.
a lua morreu, dizias.
eu parava, escutando-te
uma atenção latente debaixo das pálpebras, porque de ti interessavam-me,
primeiro: os olhos (reliquiário de histórias)
segundo (segundo a segundo, minutos muitos): a pele (película transparente de anfíbio)
terceiro: as algemas (várias, rodeando cada um dos teus braços, enroscados no centro do coração).
Depois dizia-te: a paisagem que inventei tem a banda sonora do Paris Texas e os anjos saltaram de filme em filme e pararam no parapeito deste deserto.
Consegues vê-los?
Pretos e brancos, dançam num ritual simples chamado abraço.
A lua morreu, dizias.
A noite não está onde julga estar, dizias.
Não se chega a um lugar onde nunca se viveu, dizias.
Já era tarde para avisos...
Eu rascunhara luas no céu e os anjos vestiam agora jaquetas verde-alface,
calçavam sapatos prateados
a a cor tomava conta de um grupo de rãs que em vez de coaxar, cantavam o alfabeto e contavam sementes num frasco de vidro muito fundo, muito vivo.
A lua morreu, dizias.
Guarda o envelope e não envies a carta, dizias.
Não voltes a ligar, dizias.
Nunca entendi a tua voz, dizias.
Eu fingindo não ouvir,
corria o deserto, que agora era um rio onde podiamos mergulhar,
mas sem truques de sereia era difícil poder levar-te.
Preferias terra quente,
desertos de areia,
anjos pretos e brancos,
rãs a coaxar.
Tudo no lugar
(Menos a lua que não é tua, não é minha... é de quem a apanhar)
2.3.09
Agora vai ser simples. Antonio Franco Alexandre. FOGE BANDIDO. Manel Cruz
Agora vai ser assim: nunca mais te verei.there is a tree...
imersa nesta gramática de cores, os passos são lentos mas parecem velozes.
não ligues.
não interpretes.
eu cuido das tuas mãos sem rasgar com elas os meus diários visuais.
14.2.09
No sentido lógico da paisagem
A verdade é que li muito ("pela tarde e pela noite dentro" al berto), à procura dessa palavra que completasse estas desorganizadas matérias, que são vida e movimento.
A planície já te disse, é escassa e prende os olhos quando se escuta de trás para a frente.
Há quem prefira assim, seguindo a inversão dos lugares, mas eu queria explicar-te esta geografia sem invasões ou metáforas, num sentido linear, que ordena as cores pelas sua lógicas:
o verde nas árvores,
o azul no mar,
o vermelho no sangue.
Um coração deve ser contado pelos dedos:
um, dois, três, quatro.
Depois compor um tema e uma dança ou dormir ao luar.
7.2.09
corps nu
Estendido o corpo ao mar, todo o silêncio tem a espessura dos sonhos habitados. 3.2.09
12.
Os poetas abrigados no saco de viagem iluminam-se para leituras.
Se pudessem diriam em voz alta os longos relatos de alma, que foram sendo.
Discursos do tempo,que é como quem entrega a cabeça ao vento e fica a ver o céu sugar-lhe as imagens, transformando-as em mutáveis nuvens.
Este vento não pára.
Nem esta sobrevivência que é levar a
2.2.09
31.1.09
Céu aberto
cultivando luzes no campo aberto da nudez)
escutando a velocidade dos teus passos,
escreverei no silêncio estas metáforas que te nomeiam entre os seres, como o AR,
como a melodia que engravida os dias de sol.
Vestirei o casaco vermelho manchado de coração,
pensarei no que estarás a pensar,
depois não pensarei
e atenta, escutarei o teu movimento de asas,
atravessando as ruas.
Trarás o teu corpo,
onde inscreves e corriges diariamente as estruturas do planeta,
lembrando uma criatura que o meu corpo, por sua vez,
reconheceu milen-AR.
E será um dia completo.
30.1.09
29.1.09
"Os meus dedos não se cansam de nomear-te" al berto
27.1.09
26.1.09
"Chamo-te. Um murmúrio de luz, por instantes, coincide na ilusão de uma resposta" . Nuno Júdice
disperso pinceladas num céu pela primeira vez antigo de escamas e nu de peixes.
queria dizer que confundo a epiderme com a textura das nuvens e que nunca foi difícil voar, que me está na vocação ser pássaro ou avião.
é noite, dorme agora.
22.1.09
20.1.09
17.1.09
Fiore de la Città
Hoje, por exemplo, estou dentro do mar, mas a sua linha horizontal acaba na minha mão direita, a última que tocou o teu rosto antes de partir.
Fiz a mala da viagem e trouxe dentro dos olhos dez retratos teus. Tenho-te olhado há muito tempo e ainda hoje, que o chão está quente de esperas, o fascínio mantém-se latente. Assim pulsa a terra: à velocidade dos teus sorrisos.
6.1.09
Devagarinho, como a chuva...

se não estivesse sozinha.
Lento o homem despe-se, nu como a mulher distante,
e desce para o mar.”
césar pavese
Criavas mundos.
Era o teu ofício.
Chegaras.
No saco guardavas corações. Eu amava-os.
Dizias-me que todo o acto criador começa nas mãos, é dentro delas que se pensa.
E da luz fez-se a manhã
E da manhã bebeu-se o sumo
E do sumo nasceram muitos filhos, dando lugar ao corpo da imaginação.
DIGO-TE DEPOIS PARA QUE SAIBAS DE MIM:
ELA TENTAVA ORQUESTRAR O UNI-VERSO.
Agora que partiste
Agora que te partiste,
Encontrar-te é sempre inventar-te noutros.
VOU ESCREVER-TE ESTA CARTA LENTAMENTE.
Eu queria de ti as asas e a formosura.
Nunca te disse (não houve tempo, como diria o Almada, ele que diz que só sabe do tempo quem não tem coração), mas nunca mais respirei da mesma forma. Interrompeste o livre curso da minha respiração e ritmos cardíacos. Cantar era agora uma condenação. Estava vulnerável à tempestade emocional, porque tu eras um menino banido das linhas de qualquer mão.
DUAS SEREIAS ANDAM À CAÇA DE UM ANJO MUDO al berto.
Era a inscrição que ocupava o espaço areal/sideral.
(Dizias-me:
- Uma alma como a tua já não se encontra nestas terras.)
Uma lua cheia é uma forma viva e perturbadora.
Escrever-te é ainda um acto de amor.
“Disseram-me um dia que as palavras existem para enganar os sentimentos.
Pode ser isso.
Pode ter sido isso a essência desta caminhada”
"E não terás mais do que seis minutos para me olhar.
Muitos anos depois de eu nascer, a tua face a atravessar galáxias.
(escreveu alguém, um dia, num caderno de viagem)
Vim devagarinho, com a chuva.
17.12.08
as casas
3.12.08
Admirável mundo novo
Despe-te de verdades
Das grandes primeiro que das pequenas
Das tuas antes que de quaisquer outras
Abre uma cova e enterra-as
A teu lado
(…)
Mário Césariny
Fazia escuro, fazia luz, as praias rodeavam o silêncio(…) Mas não era o caos, era a caótica natureza da sua carne em marcha que, rodando mais uma vez sobre si mesma se aquietava (…) Não seria sonho ou delírio ou disfarce. Era a realidade absoluta.
Maria Gabriela Llansol
Tratava-se de descobrir um novo idioma na geografia dos afectos. Assaltar de rompante o coração, invadir as artérias como se rasgasse partes planeadas de vida.
(O sangue corre diferente. O corpo tem uma velocidade diferente. As mãos são diferentes.
Situo-me no presente, mas parte do corpo paira, atmosférico, na memória dos lugares.
A ilha é um deserto ocupado e a antítese corresponde ao ritmo secreto da monótona e sempre nova paisagem.
Explicando (há no gerúndio um tempo em movimento, como disse a Llansol):
Casas que entram noutras casas, lugares como bonecas russas, olhos fundos, saídos da terra que é seca e quente.
Todo o fascínio das revelações.
Depois há um fonema que parece cantar e iguala os vivos aos mortos, os mortos aos vivos.
Assim, dispo o inútil casaco que cobre os meus ombros, mostro-te o coração que guarda cicatrizes, amores e acalentos. Mostro-te o poema para que não compreendas porque vou embora, quando falta ainda repousar.
Digo-te que ainda desconheço o tamanho dos meus braços ou quanta gente lhes cabe dentro. Um movimento, um movimento, um movimento para que eu prenda a vertigem à porta da rua e congele a sua ilusória sede.
Vim dizer-te que cheguei para ficar, mas parto amanhã.
30.11.08
12.10.08
DIZER LUZ
é agora que preciso dizer-te:
PENSO EM TI.
é agora que digo:
NÃO HÁ FACTOS, NEM FACTORES.
HÁ NECESSIDADE DE COMUNICAR DENTRO DOS MOMENTOS QUE SÃO EXISTÊNCIAS EFÉMERAS E TRANSITÓRIAS.
Tu, comigo, nos dias cheios de partículas-partituras-modos-visões-claras-confusas e as PALAVRAS e as suas múltiplas formas.
Comunico-te para me comunicar e esvazio as imagens que me assolam velozmente.
Agora a LUZ.
Ainda a LUZ.
Sempre a LUZ.
1.10.08
Constróis-me um castelo?
Eu precisava inventar-te uma ilha, um motivo, uma esfinge, um destino.
Eu precisava dizer-te tantas coisas que não digo….
24.9.08
Babe, I´m gonna leave you
Fotografia tomada de empréstimo ao belo "Foge, foge bandido" do Manel Cruz E estou novamente só, contigo dentro,
enquanto rasgo Paris e derramo-me ao vento (que é um estado louco)
Porque a cama tornou-se demasiado grande
Falta-lhe corpo…
O teu.
O meu.
E as possibilidades dos corpos.
Os planos seriam diferentes se percorridos à velocidade do desejo…
Partes de mim cederam ao abandono,
Perderam os incêndios e a capacidade de se incendiarem.
Porque tu rasgaste o meu nome e sorriste e não soubeste e esqueceste.
Porque tu, meu caro amor, vais figurar nos cadernos da vida, como o inadequado escolhido que cabia no meu coração… e voou…
17.9.08
doce como algodão. One, two, three, four
Eu sei que dito desta forma, parecerá improvável encontrar o fio, depois o braço e por fim a asa do sorriso.
Mas queria lembrar-te que tenho sede de impossiveis e deixei o relógio pousado na cadeira onde sentaste o pragmatismo (disfarçado de homem crescido, com as meias do avesso e uma franja que lhe cobre a doçura).
10.9.08
in your honor. FOO FIGHTERS
Wake up it's time
We need to find a better place to hide
Make up your mind
I need to know
I need to know tonight
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine
Patience my dear
We could spend a lifetime waiting here
Maybe this time
I hope I get the chance to say goodbye
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine
Day after day
Cutting after day
But anyway
Wake up it's time
We need to find a better place to hide
Make up your mind
I need to know I need to know tonight
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine
4.9.08
nunca te disse nada
absolutamente.
Para tais momentos de duração permite-me o poema usar um verbo especial: eles constelam-se . Peter Handke
31.8.08
cinco sons
ela olhava-o e, se pudesse, cantava-lha agora ao ouvido da pele e da tempestade, o amor...
24.8.08
como um ritmo
no meio da casa os teus pés ausentes ouviam-se,
ritmicamente..
23.8.08
A vida na Fanfarra (relato de duas retalhadas... causticadas)
Eram oito anjos em formato musical. Nós éramos duas e tudo aquilo que sonhávamos ser. Multiplicadas na pauta do coração, seguiamos a luz, deslumbradas!
Porque o movimento era belo e simples.
Porque aquele som -sim, AQUELE SOM!- tem a cadencia da verdade, é belo, arrebatador...
(Nota da retalhada-mor: Ai, tantos anjos juntos!)
20.8.08
beber bagaço
conheci poetas, reencontrei almas penadas d rock, jantei em Cabo Verde, bebi licor de mel, mudei de casa, mudei de penteado, mudei de paixões, estive embalada na voz doce dos amigos, falei com desconhecidos como se os conhecesse, chorei muito, ri muito, dormi pouco, bebi muito e quase morri afogada em cerveja,...
(esta lista podia verdadeiramente continuar. não seria difícil. também não tem qualquer tipo de interesse, a não ser a minha vontade de falar destas inúteis e preciosas coisas. fico-me por aqui).
14.8.08
Para que devolvas o espaço que me falta dentro.
Para que recupere a capacidade de incendiar o chão e dormir,
ao lado dele,
sobre ele,
acima dele,
dentro dele.
…
Sem queimar a pele.
8.8.08
unhas
ao longe um cântaro de água, que poderia usar para beber ou lavar.
parti o malfadado cântaro com os dentes de um anjo velho e inútil que tinha bocados da minha cara espalhados no rosto (bizarra criatura passeando no dorso do meu cansaço).
persegui a sujidade da noite, com uma esperança de coisa nenhuma, (coisa rara essa de já não me comprometer com nada)
respirei. estavas finalmente morto.
agora sim, posso começar a escrever-te.
2.8.08
26.7.08
...
Agora guarda a aragem do não dito pelo dito. Contradiz a minha vontade de marcar o teu número na minha pele.
Impede-me de alcançar o teu sorriso. Fecha a boca ao hálito do desejo e deixa que a voragem e o assombro, sejam desejos deslocados, como mãos sujeitas a esforços prolongados.
Cerra-me as pestanas minuciosamente, repetindo a cada segundo a fuga, até me veres morta de cansaços.
É um desassossego, viver com tanto amor nos olhos…
Vira as páginas do meu cabelo, acelera o compasso da melodia que celebra os teus regressos.
Essa melodia é um engano, meu amor.
Não dês importância ao tamanho absurdo das minhas palavras, para que eu esqueça a proporção dos afectos.
O amor lateja nas pálpebras.
O amor lateja nas pálpebras.
O amor lateja nas pálpebras.
…Deixa-me ir mesmo quando regresso.
23.7.08
COMO UM ROMÃ-CE ou Penélope, a história de um fenómeno meteorologico
Nesse trajecto, esquecera muitos nomes, e contava as caras que perdera de vista, variando a ordem de afectos, como quem varia a polpa dos dias.
Penélope corria para longe de si, mas era inútil a fuga, porque vestia-se de melancolia. Penélope respirava mais fundo do que o fundo do mar onde se abandonara, procurando coragem, audácia, secretos alimentos de alma, que pareciam levá-la mais depressa para novos lugares.
Hoje podia ter chorado, mas não chorara. Deixara-se perdida, frente ao sentido obrigatório, que aponta lugar nenhum, fora da carne, fora de si, na extremidade do possível. A mente coberta de fina neblina e frio no interior dos ossos, e frio entre os dentes e frio nos poros da pele e frio na cavidade do coração. Penélope não sabia para onde se dirigia, mas persistia. E era tolo quem lhe encontrava algum acto de bravura, porque estava frágil e só podia partilhar esta verdade, silenciosamente e sozinha.
Mais logo, quando a noite chegar, Penélope pensará mais e o frio será maior. Vai ver uma bela mulher a dançar com os seus fantasmas. Mulheres à beira do desamparo. O que fazemos com isso? Como gastamos isso? Surge vivo o café, muitos cafés, muitas cadeiras, que são miradouros de passagem. E uma vez mais os caminhos, um, dois, três, quatro, muitos. Há caminhos que não se contam, há caminhos que não se cantam. “Há textos que são a transformação de uma vida”, ela lê a frase, repete-a. Estão 19 graus, e ela está num lugar que não quer nomear, porque isso seria situar-se onde ela não está.
Farta de lugares comuns, farta de ideias de lugares, farta de LUGAR, LUGARES, L-U-G-A-R.
Defende-se com memória e projecta no horizonte a vontade repetida. Perdeu a vizinhança, que é como quem diz, ficar dentro de uma casa vazia, com gente dentro. São caixas em cima de caixas. É cinzento e pedra. São braços que faltam aos braços, tudo ao contrário, como num espelho que reflecte o inverso, como num corpo que repele o peso das circunstâncias. Farta de pragmatismos baratos, acredita que o coração pode ter aço dentro e no entanto, para lá de todas as evidências, quebrar-se com o tempo, quebrar-se com o vento.
Só um livro como aquele podia salvar o mundo, leu, mas esse livro não existe. É pena, pensa, mesmo que a salvação seja precária, exija dedicação, esforço, continuidade. Coisa que ainda não sabe se tem dentro, ou, no caso de não ter, como fazer para alcançá-la.
17.7.08
LOVE YOU LIKE THE SUN
alguma espiritualidade
If its love that you want
Baby you got it
From the depth of my soul
Baby you got it
I've been watching you
Am I loving you in vain
Girl there's no need to explain
Anyway that you want me
Anyway that you'll take me
Anyway that you'll make me feel a part of you
Anyway at all
If there's dreams in your heart
They'll last forever
from the depth of my soul
I'll make them come true
I've been watching you
Am I loving you in vain
girl there's no need to explain
Anyway that you want me
Anyway that you'll take me
Anyway that you'll make me feel a part of you
Anyway at all
15.7.08
NEGRO- AMARELO
A casa perdida num monte, com um amor lá dentro e sementes de girassol. Nessa casa, havia muitos e diversos lugares. Eu vivi lá mais de cem anos, não é nada que se esqueça do dia para a noite!
Perdi muitas coisas. Coisas importantes. Coisas valiosas. Se crescemos por isto, dou por mim mais alta daqui a uns tempos...
E no fundo, tenho sorte, amanhã arrancam-me a garganta e se tiver sorte, pode ser que o Boris Vian me visite, e arranque também o coração.
FIM
10.7.08
CORAÇÃO
O coração é inocente e tem o tamanho de um ovo. Prepara-se sempre para transmutar a pele em pena, anseia um corpo bizarro: quatro braços, ancas duplas e longos dedos.
O coração é pequenino, de uma infância comovedora e cruel. Encontrá-lo dentro do peito, aceso, em longa erupção, é ainda um fascínio, mesmo depois de conhecido o deserto de um co-R-po vazio.
O coração parece quente, quando visto à distância do longe. Conhecendo-lhe a temperatura interior será, escusado falar dos trópicos e dos pólos. Escusado será procurar o calor exacto, que torna comuns os diferentes.
(cont.)
9.7.08
coisas que não se possuem
As mãos eram minhas, os pulmões eram meus, mas as funções vitais eram outras. Mãos que apanhavam o ar, pulmões que seguravam afectos e bicicletas (que pensando bem nas coisas são a mesma coisa).
A noite era minha, o farol era meu, mas não tinha barco para cruzar as ondas de cabelos por tocar.
(cont.)
25.6.08
14.
com os dedos cerrados, a duração que é um poema de amor (peter handke) destróis o castelo de cartas por escrever e a memória apaga-se, caprichosamente.
24.6.08
15. "Lá fora é Verão outra vez"
Agora a memória aperta e vai para todos os lados, indistintamente.
Ao mesmo tempo, o desejo de arrumar tudo no lugar certo, esvaziar o armários, rodopiar.
Escrevo-te para dizer que a estação das chuvas acabou, que agora o caminho
20.6.08
há lá muitas iguais a esta
Eu gosto muito. Eu gosto tanto. é um livro a cantar lá dentro. Manel Cruz e amigos. Foge, foge bandido
13.6.08
Intolerável , meu caro amigo
Encostas-te à janela, mas é indiferente o movimento da luz, porque os olhos ardem, aflitos... ausentes.
De qualquer forma, sabes que vais voltar a tentar. É como subir um elevador para lugar nenhum, disseram-te com escárnio.
Confia em ti, pateta, vinga o peso do teu corpo.
Sem cedências.
(De qualquer forma, o vidro está partido outra vez. O carro cheira a cinza e está sujo. A avó ligou, diz que o gato está doente. Não mia, nem fala.O meu dedo está farto de apontar o norte. Sigo-o ou sigo-te mais logo, quando a lua estiver mais alta do que o meu ego).
3.6.08
24.5.08
9.5.08
Weird Fishes/Arpeggi . Radiohead
In the deepest ocean The bottom of the sea Your eyes They turn me
Suburbanos - parte 1
Esse ser, que sou eu, ainda aqui, sentado, sozinho, ao lado de ninguém, sou mais eu do que alguém, algum dia poderá ser. E esse outro ser que és tu, dentro da minha cabeça, ou como disse o Pimenta - TU, DENTRO DA TUA CABEÇA - ou o outro lado de ti quando te olhas ao espelho e observas as irregularidades da tua pele e o lugar mais escondido dos teus olhos.
Este corpo que é um sentido, este corpo que são muitos sentidos. Este corpo que come e que te come, se desejares. Esse homem de apetites, esse homem de apetências, esse homem que talvez te apeteça, sou eu. Sou um homem de deus e do diabo.
25.2.08
.
ponto final
Tulipas e vento
Quando chegares, depois de percorrido o caminho onde hipotecaste o brilho da lua, eu estarei calada, sentada, observando o vento dentro das tulipas.
Vais perguntar-me porque observo, calada e sentada, tulipas e vento. Eu vou dizer-te que desde cedo, procuro belezas raras e morosas.
14.2.08
Se tiveres sede...
8.2.08
since I've seen you smile
5.2.08
Deslumbramento
Este seria também um poema inventado, se não fosse agora mesmo concreto, legível.
Porque era escuro e denso como uma Primavera trocada, comprada por encomenda a um mercador de enganos. Porque era ágil e movia-se sob os pés, tocando a superfície invisível do poema. Porque era grave, acentuando-se vertiginosamente na pelugem dum hemisfério inventado. Porque sabia de leis, ditando-as suavemente, numa cadeira que construía à medida dos ventos e das marés. Porque às vezes feria a última pele imaginada, o último reduto de vida. Porque às vezes os seus braços eram grandes e dentro deles cabia a onírica cabeça do corpo apaixonado. Porque não tinha pressa de chegar ao fim do amor e ficava muito tempo a observar-lhe o interior dos olhos, como se lhe enaltecesse todas as belezas. Porque dava amor na mesma proporção com que roubava a luz por dentro. Porque o seu peito acolhia sementes novas e guardava-se depois secreto até nova colheita. Porque o seu riso transbordava de cor, mas fazia-se cinzento quando invadido pelas tempestades.
25.1.08
14.12.07
nudez
coloquei asas onde outrora reinavam circulares braços, saqueei a epiderme dum poema exótico e maltratado (para que te crescesse o entusiasmo), coloquei olhos no corpo, para rever de lés a lés os teus segredos e decorar o teu perfil... os poros fechei-os um a um, para que não me soprasse nenhum vento, nenhuma aflição, no interior do corpo.
exigias-me a nudez dos amantes, aquela parte de corpo, que se perde quando se dá. eu gostava de ti ao sol, quando transpiravas luz e queimavas o medo.
deu-te para praticar. com alguma habilidade, rabiscaste no interior do meu coração a palavra AMOR. disseste que nunca a tinhas escrito desta forma, que sempre falhara o pretexto para compor o último tema.
a mim, faltara-me a elocução para levar a preceito a descoberta. por isso dormi sem a tua visita, tive sonhos, tremi.
sem temor, como quem sabe segura a palavra escrita, deixaste-me uma pequena morte no sangue, que é como quem diz, nos olhos, nos ouvidos, na boca.
talvez regresses com tinta durável, promessas de permanência. eu acreditarei.
sobre ausências....
teria dito também que tanta satisfação aniquilaria de vez os dedos e com eles os pianos, as melodias por inventar.
teria dito que mesmo assim, era bom comer cerejas frescas, nuns lençóis muito usados (e isso nem sequer pareceria feio...) e deixar a noite suavizar o corpo.
30.11.07
rasgar
eu não acreditei, mas por via das dúvidas, sentei-me e executei a morosa tarefa. Demorei muito tempo, lembro-me do sol e da chuva. lembro-me dos dedos muito cansados e muito velhos, rasgando cuidadosamente, cada cabelo. lembro-me de sentir a noite e depois o dia. lembro-me de ter a sensação de ver passar a vida inteira e repetir um a um os meus gestos.
lembro-me também que não chegaste a voltar.
24.10.07
porque hoje o dia tem o teu cheiro
19.9.07
16. sarah kane. hoje. porque sim. CRAVE. O que sera? (a flor da pele). chico buarque
e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.” Sarah Kane, in Falta (Crave)
Chico Buarque -erá que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita
O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite
O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo
15.9.07
17.
11.9.07
Tratado para a reinvindicação do real

os braços, os dedos, os dois cotovelos e a sua pele enrugada, os pelos descolorados, o nariz aquilino e grave, os olhos.
6.9.07
4.9.07
nenúfar na memória breve. hoje ouvi dizer que faria sol, do outro lado da península do desejo. Ouvi dizer que "hoje" é um lugar demorado e tardio
27.8.07
Considerações dispersas
- eu volto, como quem regressa a um disco muito antigo, selado numa memória. O caminho não é doce, mas seduz-me a aridez onde escondes o mais brilhante de ti.
- tenho hoje vinte braços à minha volta e faz-me falta um último abraço.
- não me disseram ser simples o teu caminho, não pensei ser fácil o labirinto da tua pele, mas agora que me vejo transformada na supra-projecção do meu delirio e a rua fica fria como gelo, gostava de voltar atrás e apagar algumas linhas do teu caderno, onde me desenhaste com outro rosto (um rosto que não é o meu).
26.8.07
The Smiths - There is a light that never goes out
Where theres music and theres people
And theyre young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one
Anymore
Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please dont drop me home
Because its not my home, its their
Home, and Im welcome no more
And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine
Take me out tonight
Take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldnt ask)
Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one, da ...
Oh, I havent got one
And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine
Oh, there is a light and it never goes out
22.8.07
sobre o avesso
17.8.07
12.8.07
8.8.07
Repetir a cidade - No repeat, baby. No repeat.
Porque é verão... Considerações mínimas e solarengas
5.8.07
alto, muito alto OU o meu projecto é construir-te asas
4.8.07
1.8.07
29.7.07
um piano para três
27.7.07
I
apagaste-me a vocação de amante (i-remediavelmente).
(apesar disso, «algo em mim/caminha/ ao teu encontro» , como disse o alberto...pimenta)
26.7.07
tudo passa, baby... (composição poética sobre a multiplicação das passagens, qual milagre bíblico imaginado. Trata-se de Real-Idade)
- um campo aberto onde começa o escuro dos sentidos;
- as minhas próprias mãos que pouco pensam;
- amores perfeitos na gola de um casaco;
- a imprevista meteorologia das paixões;
- uma mística ilha de centauros;
- uma língua no sonho da saliva.
"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta
- dez comboios em partida simultânea;
- uma caleidoscópio de pálpebras;
- uma praça e o amor em estado de sítio;
- um imenso salão de baile;
- corpos embriagados a falar de amor;
- uma alegria suspensa na solidão;
- o mundo em brutal compressão;
"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta
- uma grande nuvem de vermes-almas
- filmes de artista
- uma carrinha de três rodas
- um japonês paixonado pela sua namorada virtual;
- o rigoroso inverno de 1927- 1928
- uma mulher sem sombra
"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta
"Isto passa. tudo isto passa. tudo isto passa pelos teus olhos. ou: os teus olhos passam.os teus olhos passam por tudo isto, baby" A. Pimenta
23.7.07
21.7.07
15.7.07
"Como um súbito asfalto que nos subisse ao coração"... frase encontrada, em pleno caminho, alma acesa às dezasseis horas do dia ausente.
yves klein . revolução azul"que os lagos gelam a partir das margens / e o homem a partir do coração" . Luís Miguel Nava
14.7.07
o amor não tem tempo, e dura no que amaste (antónio franco alexandre) .ode às paixões e mágoas instaladas na memória
embrulho-me nele
não direi que te amo.
55 55 55 55 55 55 55 55
Chagall13.7.07
Porque do coração cuida-se e gasta-se... incessantemente.

12.7.07
"Acordamos, já sei, transparentes e sábios, do outro lado da criação do mundo" . antónio franco alexandre

6.7.07
So in a manner of speaking... Tuxedomoon em repeat na rádio mental

5.7.07
Sobre as coisas puras... nada a dizer, agora que se desvanecem
Inacabado
"na casa de julho e agosto"- viagem extra sensível de Gabriela Llansol

4.7.07
26. E porque é tem toda a beleza que os dias quentes e frios
O homem que diz "dou" não dá
Porque quem dá mesmo não diz
O homem que diz "vou" não vai
Porque quando foi já não quis
O homem que diz "sou" não é
Porque quem é mesmo é "não sou"
O homem que diz "tô" não tá
Porque ninguém tá quando quer
Coitado do homem que cai
No canto de Ossanha, traidor
Coitado do homem que vai
Atrás de mandinga de amor
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Vai, vai, vai, vai, não vou
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
Amigo sinhô, saravá
Xangô me mandou lhe dizer
Se é canto de Ossanha, não vá
Que muito vai se arrepender
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer
Pergunte pro seu Orixá
O amor só é bom se doer
Vai, vai, vai, vai, amar
Vai, vai, vai, sofrerVai, vai, vai, vai, chorar
Vai, vai, vai, dizer
Que eu não sou ninguém de ir
Em conversa de esquecer
A tristeza de um amor que passou
Não, eu só vou se for pra ver
Uma estrela aparecer
Na manhã de um novo amor
2.7.07
Multiplicando a espera

30.6.07
29.6.07
E no FIM disto tudo, um azul de prata.... Biografia de amor

"Song to the Siren" by This Mortal Coil . Did I dream you dreamed about me? Were you here when I was full sail? Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks. For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow. "Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow. I'm as puzzled as a newborn child. I'm as riddled as the tide. Should I stand amid the breakers? Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you"Here I am. Here I am, waiting to hold you."
Betty. Novela fragmentada de uma mulher que anseia tornar-se rosa...

REQUISIÇÃO . sob a responsabilidade das mais profundas necessidades de um coração apaixonado
ajuda na realização e satisfação das seguintes necessidades:
- Quero o barco, a quilha, o leme. Quero depois a gaivota que cruza o teu pensamento e quero rosas para o teu jardim! Mais de mil.
- Quero oito braços ou um polvo em segunda mão. Quero um sol em estado permanente. Photomatons de cada inspiração. Quero amor solúvel na pele, nas artérias, condensado depois em beleza.
- Quero sete lágrimas para chorar ausências, um papagaio de papel e vento propicio ao vôo.
Desde já agradeço a colaboração.
9.6.07
Carrossel....

1.6.07
...
E depois amei-lhe o delirio sonoro, as suas esfinges musicais...
E procurei a sua casa, a marca dos seus pés no chão, o seu reflexo...
porque era teu o ....
12.4.07
Inventár-io de Flores
Mais nada podias fazer, investiras as moedas dos teus bolsos sem fundo, numa casa que eu nunca amara, a não ser na revista folheada, num compartimento de de-lírio. Não me interessava a riqueza caseira, o pão-de-ló na mesa de festas e nunca amara flores de papel, onde se borratam tintas e lágrimas... nunca te disse, mas sempre preferi papoilas selvagens, frágeis, delicadas e cor de sangue. Quebradas do seu solo-sustento, vivem tempo efémero de borboleta e desmaiam na eternidade. Silenciosas.
2.4.07
Apenas AMOR . Vinicius

Um filme de Miguel Faria Jr.
A ver:http://www.viniciusdemoraes.com.br/
19.3.07
Depois de Velvet em ilhas do paraíso, a beleza alastra-se nos continentes do coração, surge o espanto
suspendes o movimento inflamado e inauguras o primeiro gesto.
"eu penso que a memória entra pelos olhos"
Narciso morre,
vítima do seu unipessoaldesejoanseio.
Eu penso que a beleza é uma coisa efémera!
15.3.07
Falta-me o exercicio da tua escrita
14.3.07
Milhares de vozes gritam o teu nome silenciosamente
No lado esquerdo da tua mão, acumulavas recados que nunca lias.
Dizias que a surpersa-segredo, guardada entre dedos, mantinha-te aceso no susto de estar vivo.
2.3.07
1.3.07
Artur Cruzeiro Seixas - Pinta no céu das árvores e sonha para sempre dias nocturnos

As minhas coisas “acontecem”, porque são uma necessidade profunda. Um amigo meu, pintor, desejava o dia em que já não fosse capaz de pintar. Eu nunca seria capaz de o deixar de fazer. Em qualquer circunstância da vida vejo-me a garatujar num papel ou numa parede. Se considerar a pintura como uma “obra de arte” com tela, cavalete e materiais nobres, sinto-me assustado, mas esses problemas não se põem comigo, porque não é à obra de arte que aponto, e porque muito raramente utilizei materiais tidos como nobres. Desenhar e pintar são necessidades independentes de mim, que tem a sua parte de necessidade fisiológica.
Pergunta-me como comecei a fazer estes cadernos. Na verdade não fiz na adolescência o Diário que quasi todos os adolescentes fazem. Foi já muito tarde que comecei a alinhar breves notas daquilo que me ocorre no dia a dia, durante a semana ou durante o mês; as amizades, as inimizades, as descobertas (não descobrimos nada, está já tudo descoberto!), foi tudo isso o que fui apontando nos intervalos que tinha de outros afazeres. Nessas folhas ia metendo um bilhete de eléctrico, ou qualquer outra coisa que me sugerisse um momento vivido, fotografias de pessoas, e pequenas pinturas ou desenhos, etc, etc. São cadernos de uma grande fragilidade, constituídos por folhas de papel metidas em argolas, de maneira que com o tempo e com o folhear os buracos se rompem, e tudo aquilo sai do sítio. Foi um disparate usar tal excesso de fragilidade, mas já são trinta e tal cadernos, e seria impossível recomeçar. Alguém algum dia olhará com alguma benevolência este documento? Se calhar vão deitar fora tudo aquilo, pois é esse o destino de tantas coisas em Portugal. Mas esses cadernos aconteceram e continuam a acontecer, pois de certa forma disponho agora de mais tempo, passado o tempo em que fui tocado pela asa da pintura profissional. Isso já lá vai há muitos anos felizmente: Trata-se agora de deixar o meu depoiamento sobre um papel qualquer, com o lápis ou com a esferográfica que tenho à mão. Julgo que aqueles pequenos desenhos casuais, podiam afinal ser obra de arte, se transplantados para a tela e para o cavalete, digo-o sem falsa modéstia.
Na verdade nem quando pintei sobre tela usei o cavalete. De resto durante toda a minha longa vida, não devo ter pintado mais do que umas vinte telas. Elas correspondiam à tal necessidade profunda, mas também foram a maneira de sobreviver. Nunca acreditei muito naquilo que fiz, e o dinheiro que ganhava não dava para fotografar as obras. Assim, desorganizado como sou não sei o destino da maior parte do que desenhei e pintei. Justamente, há dias, numa entrevista, contava a estória de dois quadros que uma galeria tinha “descoberto”. Pediram-me para passar por lá para confirmar se os quadros eram de facto de minha autoria. Na minha idade avoluma-se a ideia de que o que fiz talvez não tenha qualquer mérito. Fui a essa galeria com um bocado de medo, e acabei por ficar tão satisfeito quanto possível. No entanto felicitei-me por não estar a fazer hoje a pintura profissional que vemos em galerias e em exposições.
Voltando aos “Diários” (prefiro designá-los como “Desaforismos”), eu não pensava que fosse possível serem editados, mas gostava evidentemente que alguém os folheasse. Foi um amigo espanhol quem mais se interessou por eles. Vive numa pequena e belíssima cidade, e o seu ganha pão é um quiosque onde vende lotaria. Por sua vez ele tem um amigo que tem uma modesta tipografia, e assim editaram 3 livros, maquetes originais, que o Mário Henrique Leiria me tinha oferecido, e que, sendo obras excepcionais, não tinham aqui merecido a atenção devida. Fiquei-lhes sempre muito grato, e a amizade estreitou-se. Visitamo-nos, e trocamos lembranças. De vez em quando presenteiam-me com restos de folhas que lá na tipografia reunem em caderno. A outras pessoas servirão para as contas do dia a dia, mas foi a partir daí, em folhas de papel de música, que passei a desenhar e a pintar, e a reunir Aforismos de diversos autores e os tais meus Desaforismos. Este caderno, mais uma vez casual, foi visto pelos irmãos António e João Prates da Galeria S.Bento, e resolveram-no incluir entre um projecto de edições numeradas e assinadas pelos autores, e resultaram bonitas edições. Esse livro intitula-se “Local onde o Mar Naufragou”. Outro livro recentemente editado reúne principalmente poesia e desenhos datados dos anos 40/60. Trata-se de uma nova editora, mas o livro é extremamente cuidado, e pode ser classificado de luxuoso. O livro intitula-se “Viagem sem regresso”, e a editora é “Tiragem Limitada”.
O meu método de desenho é não ter método. Tirei apenas o quinto ano de desenho da Escola António Arroio, mas com os professores nunca aprendi nada. Nunca gostei de aprender, a não ser comigo mesmo. A técnica é coisa muito de se lhe tirar o chapéu, mas não é o principal. Além disso, por certo, para ela não estou vocacionado. A alma é a minha técnica, e se há algum valor naquilo que faço, isso advém de um excesso de alma.
Repito que sempre utilizei papéis de acaso, por vezes quadriculados ou de 35 linhas. Parecia-me que ninguém quereria comprar tais coisas, mas o passar dos anos vieram a me revelar o contrário. Se há realmente alguma glória naquilo que fiz (glória é uma palavra evidentemente excessiva), ela advém desta experiência, de conseguir algum consenso, usando tais suportes.
Quanto às figurações que se movimentam naquilo que desenho e pinto elas vêm directamente do subconsciente, mas também dos encontros que vamos fazendo pelas ruas, dos livros que lemos, das guerras e das fomes, e de uma ou outra coisa boa que ainda nos toca. Muitos dos desenhos são feitos quando estou ao telefone. Com a atenção dividida, aquilo que aparece é mais livre; a mão vai e vem por ali fora, como traçando um gráfico. Conheço pintores, que muito prezo, que são capazes de dizer como vai ser o próximo quadro. Eles já sabem tudo, já o estão a ver. Eu, estou cego diante do papel ou da tela. Se “visse” o quadro antes de o fazer, por certo já não o faria, pois me pareceria que já tinha passado o seu tempo. Mas o meu método não será o melhor, pois que não dá para ser um grande nome da pintura. O que vos deixo são apenas depoimentos ou testemunhos.




















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