9.2.12

"En Heráldica. uno de los modos de designar el azul" (Wikipédia)

Quando ela inverteu o corpo,
para que o movimento lhe ocorresse a partir da cabeça
centrando-o no coração,
emocionei-me.

Deu-me para ficar estática perante o absoluto espectáculo,
chamava-se Celeste Bausch e praticava a dança de existir com ânsias.
Eu descobrira, lendo a profecia dos meus últimos sonhos,
que parte do encanto de prosseguir em respiros,
era o de descobrir gente bonita,
daquela que faz chorar lágrimas válidas (são essas que fazem os rios),
por isso, quando vejo a fotografia do corpo invertido de Celeste
- o corpo celeste-
ou leio os poemas da Susana Aida Poeta Poeta Poeta,
sinto que me elevo e posso saborear a eternidade.

E basta-me.

Um nome ridículo ( L´homme aux bras ballants. Yann Tiersen)


Antes da Partida:
Colocar os poemas nos olhos e navegar.
Distância a percorrer:
Sempre mais e sempre menos do que a primeiramente imaginada.
O mar vai mais a direito para quem tem lados esquerdos cantantes.

O homem tinha um nome ridículo, mas nada nele ecoava matérias daquela estranha fonética.
Como dizer?...Ele era um poeta e tinha a idade do mundo
(que é uma coisa variável e pouco precisa),
Suspirava através da pele, modo tosco de dizer que todo ele transpirava não havendo -no entanto- água visível nas suas redondezas,
somente um suor latente, uma ânsia de eternidade,
ou de ser nu como no primeiro dia em que veio ao mundo,
a única inteireza que ele tinha de tudo ignorar e assim conhecer.

"Retoco os meus poemas todos os dias, antes de adormecer."- disse-me.
(eu gosto tanto que me digam coisas)
Ficou-me a frase, a mim que só me ficam cheiros e suposições
(e intuições),
espécies de tábuas mentais de adivinhação que lêem o mundo
sob uma estranha "INFLUENZA" !
Claro que isso me serviu de explicação para o que se seguiu
e ninguém gostou de ver:
Disparatei e enchi o corpo de esquecimentos,
afinal abandonara-me
- E EU SIM!-  tinha um nome ridículo adquirido no último nascimento (relembro: Novembro de 2010),
aquele que mais arrasou das planícies.

A ventania trouxe-me febre alta,
o fogo todo aceso da extremidade do dedo maior ao cabelo mais ínfimo,
porque sofro das ferozes contra-indicações e apostaram-me num cavalo que não gosta de corridas,
prefere manhã e morrer na Serra a ser silêncio:

O poeta está lá,
invariavelmente todas as noites,
na mesma cadeira, no mesmo vinho,
no mesmo poema,
a limar-lhe os cantos, a acrescentar-lhe outros.
Se tudo correr bem, nunca mais o visito.
Não suporto amá-lo desta maneira,
sem padecer de mim,
da vida inteira.

8.2.12

La derniére fois (Cléo au Trapéze – Yann Tiersen). A kind of Tarantela. Este poema tinha que ser visual, desculpa o mau gosto.

Wings of Desire- Wim Wenders and Peter Handke (a ODE)

Penso:
Põe-me do avesso para poder voltar a ver-te dançar!
Sussurro:
Põe-me do avesso para poder voltar a ver-te dançar!
Repito:
Põe-me do avesso para poder voltar a ver-te dançar!
Grito:
Põe-me do avesso para poder voltar a ver-te dançar!

(a memória guarda-se (te) no lado contrário da cabeça,
no lado de dentro dos olhos
no lado de baixo do mundo)
Quero rever (TUDO)  ,
coisas como por exemplo:

O aquário (improvisada pista de dança) tinha a medida do teu sonho,
o que era uma forma de o nomear vasto.  amplíssimo.  imenso.

A circunstância:    
Era 1997,
fazia Dezembro em todo a banda,
eu envelhecera para ter o tamanho certo para te caber.

Pelas laterais surgiam sóis que eram muitos, ofuscavam!
Essa incandescência era ,no entanto,
mui tímida, silenciosa,
contradizendo os princípios do fácil esplendor.
Redundantes espectros, bem vistas as coisas,
porque a vida a sério nunca se vislumbra em ocasiões festivas.

Porquê?
Porque avistando-te à noite
agarrado a uma mulher de andar estranho e origem duvidosa,
a beber vinho barato que tinge os dentes cor de sangue

…e tu a sangrares coisas de tempos que não sabias materializar
…e eu imersa em desgosto de não ser corda vocal para sonorizar o mais fundo de ti…

Parecias vulgar,
tipo coisa de se dar gratuitamente e sentir alívio ao ver ir-se embora,
porque possuído de ruim /atormentada/ aparência.

Claro que o teu íntimo era outro!
- Esse era o motivo!-
esse foi sempre o motivo pelo qual voltava aos teus lençóis e chorava como um bebé
que sofre de toda a tua ausência - da que foi e da que virá –
TU ÉS A AUSENCIA!
Porque eu era a evidencia -a PROVA- da quimera
quando enredada em ti
e tudo, mesmo o teu predilecto excesso, podia ser objecto simples de agarrar e comer - sem saborear!
O sabor perdura longamente - avisavas-me! - enquanto vestias a cama de coisas que eu não queria ver.
Afinal também sabias ser mau, vocação que te defendia da dor.

Antes de consumir a tragédia,
partias os meus desejos em coisas práticas e feias.
Eu, transformada algoritmo
-sequência finita de instruções bem definidas e não ambíguas, segundo a Wikipédia-
voltava aquela casa “que não tinha tecto, não tinha nada",
viva de irónica infância.

Deixo-me na montra do palacete onde celebraremos o casório do impossível,

Para que não te enganes ao encontrar-me, situa-se numa janela principal
mas talvez atravesses a rua novamente sem olhar.
Sou bibelô onde podes pousar a beata do cigarro
e deixar -como numa dança- o olhar fugir-se e pensar.

15.1.12

Inútil "song"

Devemos ter a poesia atenta quando olhamos o mundo,

ou a repará-lo que seja como  imaginada criatura ,
filho de madeira de embondeiro,
inútil Gepeto a criar obras para amar à sua imagem.


Sem enganos creio: o mundo deve ser um estar só,
porque quando ouço do lado norte da Terra  a voz da minha mãe
apetece-me atentar ao deus e seus infinitos subditos,
para que leve fogo onde ele faz falta....
e toda a gente sabe:
o fogo faz falta ao gelo para que se equilibre em paisagens deveras apaziguadoras
ou uma coisa que não lixe o juízo  e muito menos a alma!


Há quem diga que quando a alma não é pequena tudo vale a pena,
mas eu não sou da maioria: 
a alma não tem estatura,
a alma não tem estrutura.
E quem mais sente, será também quem mais mente?


Eu acho que a alma tem voz de Raul Seixas a lembrar que ela sim,
a cena ALMA,
o mecanismo alma,
a medusa alma, venenosa, fascinante, leve alma,
é metamorfose ambulante,
a vender-se para encontrar significados.


Tenho andado num exercício faz hoje 32 anos e uns dias,
trata-se de me tentar incorporar num militar dicionário de sinónimos.
Falho e penso: o que te digo tem riso de mim e rizomas das passagens,
influenciam-me as marés e eu escavo teorias convictamente,
coisa como esta que só a ti tenho coragem de dizer:
a malta tem é medo de arriscar, tudo vestido azul e branco para não destoar do
céu e das nuvens.
Mas a paz não é um estado pacifico! 
É antes uma busca num volátil encontro,
areia que se some entre os dedos...
 (e de nada vale juntar muito os dedos e até acrescentar os dedos 
de quem mais queremos juntar a nós...)
As mão nada sabem da técnica marroquina de fazer tapetes invencíveis
a arenas e areias,
por isso descuidam essenciais coisas....
e não é por mal, é por incompetência!




É de tal modo denso o estar existencialista
que relembro uma imerecida profecia de um amigo perdido no tempo.
Dei-lhe cabo do coração sem querer,
mas para um coração isso não interessa nada:
dás cabo e pronto,
agora se és bonzinho como madres e Teresas,
isso não importa.
Aqui aplica-se a popular sabedoria:
de boas intenções está o inferno cheio
e o coração para mim, com todos os seus defeitos,
é de todas as vísceras  a única que vale a pena continuar  acreditar.


Explico o porquê:
Quando deslindraram os mil tubos que seguravam o meu pai a este mundo,
o coração audaz dava sinais de si como quem diz
- "Este homem vai partir, mas olha para ele digno e forte a provocar de frente a morte!"-
e eu emocionei-me e consolei-me pela interpretação dos factos.
Interpretar é aproximar tudo a um estado de conforto - a dita zona de segurança-
sem tiros de guitarras,
qual Hendrix a revolucionar o telhado de alegria.


Na Guiné o dia é indescritível,
Cabral justifica a derrota,
afinal um partido é uma coisa simples de entender:
um partido parte. Parte gente e partes das gente.


Ontem escrevi com sentido
e quero desviar-me dessa incandescente luz...
sou da etnia poeta e tenho dentro todos os sonhos do mundo,
não me faças -por favor- falar deles,
perco o contacto com a realidade e instauro um  estado novo.


Eu quero estar no aqui que já não é um lugar,
é um cansaço e uma utopia,
é uma derrota e um recomeçar.
Tenho a estaca no coração: mato melhor à noite e morro melhor de dia,
na minha alma marco -1 grau,
a temperatura ambiente da emoção.


Se puder ainda hoje aqui volto.
Já gostei mais disto diga-se de passagem,
agora escrevo para esvaziar os bolsos.

1.12.11

Agressivo

Vou escrever o teu nome até que lhe esqueça os ecos...
Imagina comigo:
 as tuas mãos distantes como ilhas observada em mapas antigos,
o sol desfeito em dois, metade para ti, metade para mim,
sem discutir acasos ou ocasos.
(afinal fui eu que vi o pôr-do-sol e isto sim, era um capricho).

O mar faleceu nas profecias,
nunca tarde, nunca cedo,
apenas Verão.
Este ano demasiado longo, diz-se
(olha para mim a julgá-lo ainda aqui, perto de mim).

Que tens que pagar as contas,
fazer carreira,
justificar o tempo a enchê-lo de coisas.
Pois que seja, eu vou pelo mansinho que me trouxe,
faço o manifesto longe e há-de ser um poema agreste.

15.11.11

B ( "e agora para algo completamente novo")


Vim dizer-te que nesse dia contei os dedos das mãos para confirmar a tua inesperada chegada ,
como sol que insiste brilhar quando o dia acaba...
Seria um dia à medida e capricho Boris Vian e a sua Espuma dos Dias,
um dia em que a vida reinou por completo na utopia e se fez pessoa, sorriso e caminhou.

Vi-te passar em slowmotion, o mundo desenvolvia finalmente as suas verdadeiras habilidades,
tornar próximo o que a cabeça distancia em pensamentos e criações.
As redes afinal estavam todas por concretizar: infinitas e possivéis, como o sonho.
Eu que decretara o fim do "Capitão Romance", eu pirata e gato e sozinha,
a escrever-te desde então os instantes da vida,
como se de repente fosses tu a acender-me a memória.
Como te chamas?
Como chegaste?
Onde te dói?

Escrevo-te para te lembrar que este segredo é longínquo  e ao ver-te naquela  fotografia de passe, faz hoje um mês ou mil anos,o rosto era o mesmo que antes vira impresso no teu olhar e me prendera de beleza e angústia...um rosto muito antigo como o amor.
E vi-te pequeno e guardei a emoção para este poema,
porque socialmente seria incómodo lembrar-te que nunca te vira e no entanto,
parecia que nunca te tinha esquecido.

Vou tomar um café forte, preciso adormecer o intuitivo rasgo,
que me leva a ser nua de metáforas e dizer-te tudo.

Quando amanhã estiveres lá,
o homem da bata branca há-de sorrir e era bom que acreditasses inteiramente nos seus talentos,
nunca houve motivos para temer e quero ver-te velho a falar da vida e do futuro.
Sabes, eu acho que há sempre futuro...

Amanhã (também) o escorpião António faria 71 anos,
mas quando voou estava mais jovem do que eu,
era um menino a correr com um balão voador,
a percorrer a eternidade:
"When our wings are cut, can we still fly?"
Eu sei que tu mais do que eu dirás que sim,
és um leitor dos silêncios, mesmo quando a vida arrepia com os seus contornos de mau gosto
e só apetece cosmos que leve em buracos negros tudo o que sente ou mexe.

Não somos só pessoas felizes,
somos pessoas inteiras.
Eu estou inteira aí,
aqui o corpo mexe, tecla, está veloz.
Precisa acalentar o teu silêncio,
precisa recortar nuvens para a tua janela.

Passeio pelo laranja da tua casa e gostava de ser alma e vôo,
cair-te num sonho e ter as ilhas do sul e o sol.
mas sabes que nem sempre se realizam os planos:
escrever é uma forma de mantê-los vivos como a esperança.

Agora vou só abraçar-te,
se puder fico aí esta noite

...truz...truz...posso entrar?

13.8.11

P



Jean Michel-Basquiat

Estávamos a um passo de ver o primeiro sol.
Era assim que suspiravas, enquanto o sol,
atraiçoando-te,
se colocava completo esticado no céu,
demasiado alto para se deixar atingir  pelo teu corpo frágil.

Nunca me disseste como te doíam os sonhos,
por onde te cresciam as rugas,
por onde semeavas as interrogações.
por iso, à minha maneira,
imagino-os.
Se escrevo é porque penso que quero que escrevas:
há razões mais fortes do que os mitos,
e no fim, só ficam sepultadas as caveiras.

Creio por isso, que dentro de cada um existe a possibilidade:
salpicar o cosmos com as anunciadas 21 gramas que um corpo perde aquando o seu último respiro.
Gosto de anoitecer a magicar maneiras de te colocar no espaço sideral,
mas terás feito isso melhor do que eu,
do que ela,
do que nós.

Eu ainda tenho um corpo, um sopro.
Ouço Zeca Afonso, penso beleza - interior, interior, interior- como eco vibrante:
tudo fica,
tudo vai,
e no remate final pretendo aniquilar o pretérito perfeiro,
esse modo agreste  de conjugar a vida.

Deixa-te ficar sentado na cadeira se a tua vontade assim quiser,
ou segue pelo calor dessa viagem,
onde tudo é fátuo e eterno.

Eu vinha para dizer-te que a minha cabeça pairou,
sobre os fios que te enlearam o sangue,
as veias,
os rins,
as tuas mãos tão quietas.
Quero repetir o teu nome no silêncio
e servir-te anjos pela janela da tua ausência.
(mas)
Sou frágil e não tenho o cetim que envolveu o teu corpo defunto,
mas cabe-me abraçar a manhã,
cabe-me abraçar-te amanhã.

Se eu falhar na tarefa de existir,
ou se também o meu corpo atraiçoar o meu tempo de inspirar azul,
talvez te encontre e possamos dizer o não dito,
coisas como gostar de ti fez-me ser difícil,
confuso retalho de pensamento
e por isso agradeço-te.

Vou instruir os meus dedos, cada vez mais alucinadamente.
Não imaginas -ou talvez imagines- como me enche de entusiasmo crer no indizível ou
nessa sede de revelar o espectro da paisagem repetida
ou na  maneira idêntica-diferente como a noite se derruba no colchão e adormece.

Tenho ideilizado uma peça de teatro,
vejo o palco,
a caixa negra
e  mais uma vez o azul de Klein,
acentuando-se nos cantos,
essas fronteiras que delimitam os espaços
- o actor e o observador-
metáfora certa do tempo,
do corpo,
da passagem.

Talvez realize esse espectáculo.
Talves realize esse espectáculo de forma sublime,
e a morte que "sai à rua",
possa entrar finalmente na vida,
sem triunfar.

25.7.11

azul



Recordo a imagem que falaste,
eram duas da tarde e o sol fervia-nos na pele.
Havia mosntros, mas apenas na minha imaginação
(ainda há. em mim. e na música. e na dor)

mas retalhaste as partes mais luminosas desse dia.
ampliavas assim as formas mínimas,

Na verdade, apenas isso me interessava.

Em mim ficou a tela.
(e agora sei do que falavas)

28.6.11

A biografia do homem do lado de lá

Em termos práticos aconteceu assim:

Cansado de sonhar com o sofá fez-se à noite,
sem farnel, a fome comeu-lhe as estrelas.
Tal atitude valeu-lhe um estado mais oniríco, mas pouco adequado:
o cabelo comprido como algas, ou evocações de algo
algo para ser dito,
como por exemplo, o modo raro de ser manequim da demencia,
ou de fazer reinar o imprevisivel riso  numa festa.

Tudo se tornara fora do lugar onde antes, agora, depois estivera,
por isso inadaptou-se dos modos e costumes,
inverteu hierarquias, definindo:
- MEU COMANDANTE É A LUA!

Porém, mantinha-se distintito na forma rara de decapitar jornais:
dormia sobre as noticias do mundo,
conjungando com as letras maiores os nomes dos  que mais amava:
Joaquim, o filho mais novo
(roubou o nome ao mítico avô português),
Raquel, a segunda mulher, a da voz doce como mel...
Machel, o rebelde libertador.

O seu nome não escrevia, o seu nome já não sabia.

Os pés em mutação: ora chatos, ora audazes, ora negros de pó de terra...pó sideral.
(depois de dar a alma ao cosmos perde-se a capacidade de distinguir céu de chão
e flutua-se)
Caminhando em tempo certo, marcando o desconcerto,
tatuava nos muros em letras garafais - Só Jesus salva! -
depois ria da afronta e da mentira.

Era assim a sua oração, incerta.

Ele ausentara-se do circunstancial mundo,
eu escrevia-lhe nas rugas uma ternura
que não sei partilhar.

De qualquer forma,
o poema é dele,
como é dele este navegar.



27.6.11

/re/parar o tempo


Se abrir a porta, repare no estendal:
as peças são todas musicais e autênticas,
artigos raros, vividos em primeira mão
- cinematograficamente.

Não ligue à desorganização das artérias,
o sangue é um criatura apaixonada, embora caprichosa,
irrompe por covas fundas e feridas de difícil cicatrização
(tornamo-nos a matéria que pisamos)
Seria uma vantagem aceder consigo ao lado de lá desse muro-pessoa,
saber de perto o som da sua dor,
quantas vezes bebeu o vinho do seu desatino,
quantas insónias ocuparam os ponteiros dos relógios que alberga,
quantas mãos amou pelo modo particular de serem ternas,
quantos gritos deu em vão,
quantos risos desenhou no seu lado solar.

(mas)

É minguante a corda e ténue o sonho .
A memória está preenchida pelas visões
e viver perdeu impacto.

Terei que explicar o enredo para que não se enleie na confusão:
fui eu que teci esse estendal, tentando o anonimato.
Sequei a folha do caderno onde era oleira das minhas visões:
nesse tempo estava muito viva e tudo me corria para as mãos,inspirando-me!

Hoje a chuva não chove,
nem há sementes de nuvens.

A roupa seca em cima dos ombros
e cai para dentro,
exausta.

8.6.11

in Beirut ( Veneza que não existe OU evocando David Mourao-Ferreira

A
carta que te escrevo
chega desfasada em longos segundos ,
nada saberás do peso do ar que inspiro quando deito a minha cabeça na almofada do mundo,
esse que por incompetencia lunar
          - tramou-nos a astrologia -
me escapa!

Se viesses sozinho,
entregue a este pedaço de sol recortado em ninharias
- para que saibas do que te falo, nomeio-as:
- um retalho de falsificado cetim,;
- um álbum antigo de Nick Cave;
- a minha fotografia mais sombria (quiçá, a mais verdadeira!);
- um livro por escrever do Pedro Támen;
- o malmequer amarelo na casa morta de al berto (o vivo);
- a minha tesoura de pegas verdes (para recortar mundos e fundos e fundos com mundos)

e se até um manatim - esse estranho -tem história que vale a pena ser narrada, amada, amarrada,
a minha história tem coisas que se mudam de lugar, instintivamente (são as sedes).

Outra coisa importante: acho inútil uma vida sem parêntesis... é como uma vida mais acre, sem travões a fundo de nós, sem partiçhas inconscientes, movimentos desorganizados de círculo, pertença: MO-RAN-ÇA.

(...)

30.5.11

http://cercarte.blogspot.com/

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade - Os Sulcos da Sede

modus navegável


És o meu estudante de poemas preferido.
 Essa danação há-de viciar-te a melancolia.
Peças mais que fundamentais para seres duplos inteiros de coisas máximas e minúsculas – por outras palavras, TUDO . o excesso do tudo.

“Que dizer de ti virado ao contrário, sem vertigens? Como atravessas este céu sem matéria? Vamos ao jardim, as árvores nunca dormem, esqueci-me de te sossegar e os poemas são pesados de sentidos..”
“Talvez vislumbres quem fui, talvez saibas que todos os nossos rostos estão presentes na memória… para que os sentidos se revelem…”
In Ant. Ramos Rosa . Bichos Instantâneos


Um ferro-velho de emoções como a última despedida.
Nuno Júdice

Seria fácil, se abrisses estas páginas abstractas, que se geram dentro da minha cabeça.

 

15.5.11

last beat of my heart . siouxie and the banshees

árido é o terreno desta manhã,
convocado pela longa espera.

afinal. são anos a aguardar a luz do sol
no pior lado da casa
(daqui avistam-se barcos mortos,
os dedos estão sempre afogados num copo,
os olhos são baços)

no registo deixei uma passagem invisível!
talvez sejam de luz os olhos alheios,
leiam as entrelinhas do meu corpo a dançar-se
para distrair a sua própria ausência..

de qualquer forma, hoje a paisagem adoeceu de tempo,
como eu de congeminar escassas possibilidades.

caminho com a aridez da minha boca calada
e isso ocupa-me inteira.

10.4.11

Angelfish Decay

(Tema em repeat, escrito noutras horas, noutros ritmos, mas com ecos do hoje.
Hoje com ecos do ontem)
Cancioneiro astral OU que triste se tornou a minha solitária lusofonia
a KIND of something OU se pudesse cantava-te esta canção

Era escusado morreres-me repentinamente,
agora que abrira as janelas e prepara um amanhecer radiante.
Ficou-me um milagre de grão num celeiro devastado,
um gatafunho de Chagall na ementa
-agradava-te o verde esbatido em púrpura e as transparencias da alma-
Porque na verdade, só por ti poderia colorir uma tela,
fazer uma casa,
recortar cebolas para te chorar baixinho,
de propósito, de propósito... sem propósito.

Falo-te de uma casca de pinheiro que se colou ao meu dorso,
pressagiando duas promessas,
uma era tonta e bela:
ir contigo ver de frente o hemisfério sul, romper as botas e as rosas,
Outra – a mais inútil-
era a de carregar no botão desse casaco de cetim queimado e fazer-me friamente à vida,
puxar o colarinho do vizinho,
trocar os sapatos e calçá-los, alegremente.
Creio ter falhado no predestinado,
(tão previsivel, não achas?)
Escrevo o poema que invalida o pragmatismo
e incendeia o vício.

Tu e eu: coincidencia de matéria orgânica

Da terra ocre que se seguiu, não é de estranhar o azul ciano:
é das cores primárias que se gera a derivação,
deixa-me por isso pequena, início por maturar,
raiz sem tronco, mutável e serena.
(Com quanta física se estuda uma alma?
Escreve-se o relatório ou faz-se um poema?
Reduz-se a gordura das coxas e das ancas ou modela-se
-FINALMENTE-
as folhas de uma árvore e esculpe-se o ramo?)
Na eventualidade de Maria ou eu,
não conseguirmos escapar à dor dos sapatos minúsculos,
escreve um requerimento ao céu,
requisitando entidades divinas
para curar as cefaleias.
Tenho dúvidas na prova de existir.
ERA BOM QUE NESTA CARTA FICASSE TUDO QUANTO ARDE.

Era um livro.
Eu lia e repetia, num ponto certo,
desfiando o dedal, desnudando pele,
mas era carne o que havia depois de aguçadas as fomes
-enganei-me!-
julgava ser matéria mais alta, mais elevada,
afinal,
tenho corpo,
tenho sede,
tenho medo.

São sete da tarde e eu falto ao compromisso,
as crianças madrugam,
são rápidas! - A KIND OF LULLABY-
bye bye, silver girl,
let's fuck with the rising sun.
As rimas são patetas.
Tornaste as rimas patetas.
Tu és pateta.
(é só um desabafo)
O poema acaba,
o pastor roubou as ovelhas,
o queijo furtou o leite ao vinho,
a Primavera coalhou por antecipação.
A última linha é absurda e exige CORDA.


8.4.11

Barco e marcha fúnebre



Começo por te contar novidades desse barco sem ré
( a ausência de uma nota musical -para que relembres- é razão suficiente
para falecer-se de maleitas várias,
como um riso que não se dá,
um baile que não se dança,
um copo que se atrasa e aquece - o INSUPORTÁVEL!)

O barco -esse pequeno utensílio das marés e dos brilhos - navegou doidamente,
invadindo caminhos que se outrora pudesse, desejaria sem cruzar,
porque antes era altamente quimérico,
um pouco mundano,
flectido, jenuflectido em actos de contrição duvidosa.-
e isso bastava-lhe para o livro de memórias.

Um barco tem madeira
-como porventura saberás-
corpo, alegria e desespero de troncos de árvore,
uma espécie de albergue de falecidas naturezas,
pescando outras espécies,
outras belezas.

Este barco não foi feito por mãos humanas,
cresceu dentro do seu próprio mar,
parido de loucura e alguns rituais
( as águas deste ser gritam alto ao impossível).

Não presumas milagre,
o barco nasceu para morrer,
e hoje há um triste funeral,
numa hora em que chegues de madrugada
para remendar as velas em chamas.

Não basta ser marinheiro para navegar sozinho,
este mar é traiçoeiro e gasta-te a tinta a escrever coisa nenhuma.

É um barco demasiado vivo para se importar com o fatal destino
da sua mortalidade.

Hoje vai tornar-se cimento numa parede esburacada,
esvaziar as ondas,
voltar à prodigiosa ignorância do desconhecido.

26.3.11

Tum Tum Tum

Agarra-me com a fivela dos teus dentes,
onde - ouvi dizer - morrer é amanhecer crocodilo,
peixe de Nantes (esse inimaginado),
figura de cinemateca a aguardar estrelato
no cosmos desatento de um qualquer lunático.

Estou a desfazer esta nuvem em bocados de papel,
para reparar a combustão de um motor que nada a vento lento..
eu tento, eu tento, eu tento,
mas pouca terra, dá pouco fruto
e a nêspera morreu, tal como o Leiria previra nos seus gins.

O mundo - disseram-me - vai acabar no dia 21 de Maio,
por isso, decidi conspirar contra Noé
e levantar-te da poeira.
Se morrer, que seja em grande:
um sorriso minimal - teu -
arte contemporânea no meu visceral tum-tum-tum interior.

Vamos por aí cantar esta canção,
quero ouvir esta música na tua mão,
essa concha complexa, onde escreves sobre mares que te desapontam os lápis
(és tão menino, pequenino, docinho de limão, grainha de Aquiles no céu da minha boca)

Se te lembrares de trazer o piano (tua certeira identidade),
guarda-o nessa varanda com vista para a imensidão,
poderemos retocar as teclas com o que nos resta da fantasia
e rebolar, poetas-profetas, como catástrofes mundiais.

Celebremos a recente antologia onde nada se preveu
passível de singrar,
somos todos artistas falhados a repetir o palco
(tenho asfalto nos bolsos para desconcertar as ruelas)
Amanhã volto a tocar o sucedido acontecimento:
corpos de peixe náufragos de uma manhã contínua,
chuviscos de suor e fadiga
e um copo tinto de ti,
tambor,
guitarra,
delícia.


24.1.11

CROWDS . Bahaus

Hoje,
quando o ar foi mais fundo,
o travão mais fundo,
reparei na cor em que me diluira,
nos minutos em que me ausentei deste escorregar de matérias inúteis
e entristeci de alegria
(devolve-me a bicicleta,
o sapateado
 e o lusco-fusco lunar do poema inédito,
onde navegavamos em paisagem idêntica)

passara a relativizar o absoluto,
essa doença consome os pulmões,
enerva os dedos!
(estou lenta para criar cenário e fundo musical,
à tua altura,
perdoa a velhice do meu respirar)

depois voltaste,
só agora me apercebo do continuum deste latejar,
talvez seja por isso,
que Bahaus senta-se à mesa,
come o melhor que há cá em casa
e pernoita,
alternando-se:
ora mel, ora malancolia.


Observo o teu semblante envelhecido pelo excesso poético
(eu estava delicerada . eu estava deliciada)
aguardara as tuas metáforas durante uma manhã que me cansou o relógio
e alterei a fisionomia interior deste verso
para manifestar o meu descontentamento,
o meu deslumbramento:
voltaste mais forte,
creio que preparado para morrer
(foi a conclusão a que cheguei quando te vi, apressado
e livre, a amar os abismos que convenientemente tecias)

Vieste sem agasalho
- nunca diria que acabavas de chegar da terra do frio -
talvez já não tenhas medo,
mas lanço-te o desafio:
recompensar a perda de  mar,
com sangue e fio,
costurar essa cicatriz demente,
que é mundo e  gente
e tragos de coisa nenhuma.
Depois repicar os sinos e
movimentar o subterrâneo.

Let´s trouver la beauté.

2.1.11

em busca (ainda) das casas absolutas. fragmentos . live in Guiné

O relógio voltou a acertar na hora errada.

Um roteiro para a solidão.

Paul Celan

"AMOR TRAÍDO PROVOCA TRAGÉDIA"

Perdi a caixa de maquilhagem do mundo.

Padeço de uma epidérmica simbiose com o que aparentemente repele, choca e/ou arrepia.

Que todos temos medo e água pura. Pedro Támen

Uma mesa alargada pelo sol.



Afinal, só vim aqui para escrever poesia e deixar que a morte aconteça um bocado mais. falar da Guiné é ter em conta os improváveis, mas também algum -relativo- conhecimento de causa, ou das causas de cada um e que cadaqual, à sua mercê conta ou faz acontecer.
A minha última aventura foi correr atrás do pó vermelho... profundamente.
 
VENDE-SE ERRADICAÇÃO DA POBREZA E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.
PARA MAIS INFO. CONSULTAR TESE E PRATICAR TEORIA NO TECLADO DO SEU PANO MENTAL.
 
Preciso sentar-me e recortar novissímos projectos.