31.1.09

Céu aberto

Preparei-te esta cadeira que tem paisagens de mar à solta.
(sentados, conversaremos com as mãos,
numerando imagens velozes,
cultivando luzes no campo aberto da nudez)
Quando chegares,
escutando a velocidade dos teus passos,
escreverei no silêncio estas metáforas que te nomeiam entre os seres, como o AR,
como a melodia que engravida os dias de sol.

Vestirei o casaco vermelho manchado de coração,
pensarei no que estarás a pensar,
depois não pensarei
e atenta, escutarei o teu movimento de asas,
atravessando as ruas.

Trarás o teu corpo,
onde inscreves e corriges diariamente as estruturas do planeta,
lembrando uma criatura que o meu corpo, por sua vez,
reconheceu milen-AR.

E será um dia completo.

Fui ver as árvores.

tenho estas palavras,
onde cabe exactamente o teu coração.

29.1.09

"Os meus dedos não se cansam de nomear-te" al berto

Sob criação lunar, a casa manifesta-se ao mundo

o discurso projectado pela paixão. herberto hélder .
entrar no coração como um braço vivo
OS MUSEUS IMAGINÁRIOS DE MALRAUX

o continente submerso. o navio de todos os amantes por onde rola a carruagem onde viajamos,
pintada de liberdade e poesia contigo a dormir sobre o meu peito . antónio maria lisboa
tu conhecerás o temor e transformarás a terra. maria gabrriela llansol

trazer aquilo que é anterior ao esquecimento . antónio ramos rosa

um reino tão fascinante que não tinha rei . gonçalo m. tavares


.


"Com a via láctea à volta do pescoço e os dois hemisférios nos olhos" . Blaise Cendrars


Minimal

Repara como esta estação empalideceu durante a noite.

26.1.09

"Chamo-te. Um murmúrio de luz, por instantes, coincide na ilusão de uma resposta" . Nuno Júdice

é tarde e os bolsos estão vazios.
Antes, quando observava o fundo dos bolsos avistava sempre ilhas ou sorrisos, mas hoje, os bolsos adormecem antes das minhas visões e a casa é um lugar que não existe.

disperso pinceladas num céu pela primeira vez antigo de escamas e nu de peixes.
queria segredar às visões do mundo que tenho tempo para amar cada um dos seus pormenores, ondas e barulhos, cinzentos e azuis.
queria dizer que confundo a epiderme com a textura das nuvens e que nunca foi difícil voar, que me está na vocação ser pássaro ou avião.
(NÃO DIGO!)

as ruas não esperam, traçam segredos de um lado ao outro do coração, e o movimento persiste, agitando os rostos à passagem do tempo. Depois de muito agitados, os rostos envelhecem, são comidos pelas imagens do próprio mundo. o amor cansa-se de escavar as suas próprias poções.

é noite, dorme agora.

17.1.09

Fiore de la Città


o mar pode ser muito longo ou não, dependendo do lado que o vês.


Hoje, por exemplo, estou dentro do mar, mas a sua linha horizontal acaba na minha mão direita, a última que tocou o teu rosto antes de partir.

Fiz a mala da viagem e trouxe dentro dos olhos dez retratos teus. Tenho-te olhado há muito tempo e ainda hoje, que o chão está quente de esperas, o fascínio mantém-se latente. Assim pulsa a terra: à velocidade dos teus sorrisos.


(Quando sair para a rua, deixarei um recado

nesta imaginária porta que separa os nossos quartos.

Será um recado longo, mas só o poderás ler, parado.

No silêncio.)

6.1.09

Devagarinho, como a chuva...


“a esta hora dorme dentro da cama a mulher que faria amor
se não estivesse sozinha.
Lento o homem despe-se, nu como a mulher distante,
e desce para o mar.”
césar pavese


Criavas mundos.
Era o teu ofício.

No dia 7333, de um ano impossível, numa varanda de estrelas sumidas eu iniciara-me no amor.

Chegaras.
No saco guardavas corações. Eu amava-os.
Dizias-me que todo o acto criador começa nas mãos, é dentro delas que se pensa.


um novo universo nascia, redentor de todas as tentativas de beleza.

E da luz fez-se a manhã
E da manhã bebeu-se o sumo
E do sumo nasceram muitos filhos, dando lugar ao corpo da imaginação.


DIGO-TE DEPOIS PARA QUE SAIBAS DE MIM:


NÃO SUPORTO COPOS DEMASIADO CHEIOS,


SALAS MUITO OCUPADAS,


VOZES AGUDAS E CORPOS QUE NÃO SAIBAM BAILAR.



ELA TENTAVA ORQUESTRAR O UNI-VERSO.

Agora que partiste
Agora que te partiste,
Encontrar-te é sempre inventar-te noutros.

VOU ESCREVER-TE ESTA CARTA LENTAMENTE.


Mário Henrique Leiria


Eu queria de ti as asas e a formosura.

A sede e a penumbra.



Nunca te disse (não houve tempo, como diria o Almada, ele que diz que só sabe do tempo quem não tem coração), mas nunca mais respirei da mesma forma. Interrompeste o livre curso da minha respiração e ritmos cardíacos. Cantar era agora uma condenação. Estava vulnerável à tempestade emocional, porque tu eras um menino banido das linhas de qualquer mão.



NÃO ME DEIXES MORRER! NÃO ME DEIXES MORRER!



DUAS SEREIAS ANDAM À CAÇA DE UM ANJO MUDO al berto.
Era a inscrição que ocupava o espaço areal/sideral.


Eu sabia que era de ti que falavam, por isso escondi-te num lugar seguro e nunca mais te encontrei.



(Dizias-me:
- Uma alma como a tua já não se encontra nestas terras.)


Digo-te:
Uma lua cheia é uma forma viva e perturbadora.


Escrever-te é ainda um acto de amor.

“Disseram-me um dia que as palavras existem para enganar os sentimentos.
Pode ser isso.
Pode ter sido isso a essência desta caminhada”


in Carne Torpe.


"E não terás mais do que seis minutos para me olhar.


É esse o tempo.


Porque cantar é pilhar uma parte pura do coração por deixá-lo todo à escuta.


As nossas vitimas são a nossa melhor parte."


Vasco Gato

Muitos anos depois de eu nascer, a tua face a atravessar galáxias.
(escreveu alguém, um dia, num caderno de viagem)


Vim devagarinho, com a chuva.

17.12.08

as casas

é nesta casa feita de frio e matinal geada, que o coração repousa. faz frio no mundo. faz frio no coração, mas nada disso rouba esplendor às cores (também frias) do fim do dia.
esta casa tem o tamanho da minha viagem e a passagem para muitas outras casas, todas cheias de portas, qual Alice no país de maravilhas e horrores.
esta casa agrada-me, porque as casas agradam-me. As casas são efémeras ou então peremenecem na memória ( e as efémeras também se guardam). Diz o Gonçalo Tavares que a memória é emocional. Concordo e aceno a cabeça afirmativamente, numa cumplicidade próxima que é afinal distante A memória quando chega, iluminando os olhos de imagens interiores, altera o espaço e o estado do coração dentro e por dentro de si. Como se aumentasse de peso, de estatura, de estrutura.
as casas guardam-se dentro e vivem por fora. (Eu penso que a memória entra pelos olhos. quem disse foi o Herberto Hélder)

3.12.08

Admirável mundo novo


Despe-te de verdades
Das grandes primeiro que das pequenas
Das tuas antes que de quaisquer outras
Abre uma cova e enterra-as
A teu lado
(…)
Mário Césariny

Fazia escuro, fazia luz, as praias rodeavam o silêncio(…) Mas não era o caos, era a caótica natureza da sua carne em marcha que, rodando mais uma vez sobre si mesma se aquietava (…) Não seria sonho ou delírio ou disfarce. Era a realidade absoluta.
Maria Gabriela Llansol


Tratava-se de descobrir um novo idioma na geografia dos afectos. Assaltar de rompante o coração, invadir as artérias como se rasgasse partes planeadas de vida.
(O sangue corre diferente. O corpo tem uma velocidade diferente. As mãos são diferentes.
Toco no meu rosto e noto-lhe linhas diferentes)

Situo-me no presente, mas parte do corpo paira, atmosférico, na memória dos lugares.
(Eu queria dizer-lhe que ficasse tempo suficiente para quebrar o cuidado que nos esconde uns dos outros, mas não digo. Ele é bonito quando esquece o vício que lhe esconde o brilho original.)

A ilha é um deserto ocupado e a antítese corresponde ao ritmo secreto da monótona e sempre nova paisagem.
Explicando (há no gerúndio um tempo em movimento, como disse a Llansol):
Casas que entram noutras casas, lugares como bonecas russas, olhos fundos, saídos da terra que é seca e quente.
Todo o fascínio das revelações.
Depois há um fonema que parece cantar e iguala os vivos aos mortos, os mortos aos vivos.

Assim, dispo o inútil casaco que cobre os meus ombros, mostro-te o coração que guarda cicatrizes, amores e acalentos. Mostro-te o poema para que não compreendas porque vou embora, quando falta ainda repousar.
Digo-te que ainda desconheço o tamanho dos meus braços ou quanta gente lhes cabe dentro. Um movimento, um movimento, um movimento para que eu prenda a vertigem à porta da rua e congele a sua ilusória sede.

Vim dizer-te que cheguei para ficar, mas parto amanhã.

12.10.08

DIZER LUZ

Porque ainda não sei contar esse tempo que dista o desejo de dizer, do acto de dizer,
é agora que preciso dizer-te:
PENSO EM TI.

é agora que digo:
NÃO HÁ FACTOS, NEM FACTORES.
HÁ NECESSIDADE DE COMUNICAR DENTRO DOS MOMENTOS QUE SÃO EXISTÊNCIAS EFÉMERAS E TRANSITÓRIAS.

Tu, comigo, nos dias cheios de partículas-partituras-modos-visões-claras-confusas e as PALAVRAS e as suas múltiplas formas.
Comunico-te para me comunicar e esvazio as imagens que me assolam velozmente.

Agora a LUZ.
Ainda a LUZ.
Sempre a LUZ.

1.10.08

Constróis-me um castelo?

Eu precisava cantar-te à porta e celebrar contigo o próximo aniversário.
Eu precisava inventar-te uma ilha, um motivo, uma esfinge, um destino.
Eu precisava dizer-te tantas coisas que não digo….

Ficou por desenhar


TENTEI DESENHAR-TE

NA PAREDE

DE TUA CASA.

QUERIA QUE TE LEMBRASSES

DE TI

ANTES DE PARTIRES.









24.9.08

Babe, I´m gonna leave you

Fotografia tomada de empréstimo ao belo "Foge, foge bandido" do Manel Cruz

E estou novamente só, contigo dentro,
enquanto rasgo Paris e derramo-me ao vento (que é um estado louco)

Porque a cama tornou-se demasiado grande
Falta-lhe corpo…
O teu.
O meu.
E as possibilidades dos corpos.

Os planos seriam diferentes se percorridos à velocidade do desejo…
Partes de mim cederam ao abandono,
Perderam os incêndios e a capacidade de se incendiarem.

Porque tu rasgaste o meu nome e sorriste e não soubeste e esqueceste.
Porque tu, meu caro amor, vais figurar nos cadernos da vida, como o inadequado escolhido que cabia no meu coração… e voou…

17.9.08

BE KIND . Devendra Banhart

Vinha dizer-te que já não estou aqui.

doce como algodão. One, two, three, four

Eu precisava de um pedaço de fio que ligasse o meu braço direito á asa do teu sorriso.
Eu sei que dito desta forma, parecerá improvável encontrar o fio, depois o braço e por fim a asa do sorriso.

Mas queria lembrar-te que tenho sede de impossiveis e deixei o relógio pousado na cadeira onde sentaste o pragmatismo (disfarçado de homem crescido, com as meias do avesso e uma franja que lhe cobre a doçura).

One, two, three, four
I'd like to sing to you if you'd like me to
I'd like to sing to you if you'd like me to
I'd like to sing, sing, sing, sing, sing to you
Alone
And I'd like to dance with you if you'd like me to
I'd like to dance with you if you'd like me to
I'd like to dance, dance, dance, dance, dance with you
Alone
Devendra Banhart . A ribbon

10.9.08

in your honor. FOO FIGHTERS

"Razor"
Wake up it's time
We need to find a better place to hide
Make up your mind
I need to know
I need to know tonight
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine
Patience my dear
We could spend a lifetime waiting here
Maybe this time
I hope I get the chance to say goodbye
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine
Day after day
Cutting after day
But anyway
Wake up it's time
We need to find a better place to hide
Make up your mind
I need to know I need to know tonight
Sweet and divine
Razor of mine
Sweet and divine
Razorblade shine

4.9.08

nunca te disse nada

era assim que eu gostava que compreendesses o fundo dos meus olhos.

absolutamente.

Para tais momentos de duração permite-me o poema usar um verbo especial: eles constelam-se . Peter Handke

Bater no tecto do céu e a partir daí escrever uma pauta. Não interessa se de sons ou de palavras. Trata-se de orquestrar o céu, descodificando-lhe primeiro o azul, depois a carne das nuvens.
Comer os frutos das estrelas, que sabem a noite, escrever um poema ou dois, relê-lo(s) e deitá-lo(s) fora. Sem marcas, como se o tempo fosse essa indiferente leveza.
Trata-se de quebrar a proporção, caprichosamente e depois reclamar a ordem, a organização, como se uma casa coubesse inteira numa respiração.
Não cabe. Nem casa, nem coração. Se atentos, poderemos sentir a expansão dos afectos, dos pensamentos nas ramificadas sedes do pensamento.
Depois de poema rasgado às costas, explorar apenas a superfície lunAR, sem desejo de intimidade. Paisagem apenas.
Without beauty, mon chér.
Assim, sem marcas, apenas a memória de ter tentado compor uma constelação nova (mas faltaram estrelas, pincéis, pianos e o cansaço provoca arritmia nas palavras de beleza. Assusta-as).

31.8.08

cinco sons

ele parecia feito de cristal e avançava discreto e grande, ocupando a noite e o pensamento.
ela olhava-o e, se pudesse, cantava-lha agora ao ouvido da pele e da tempestade, o amor...

23.8.08

A vida na Fanfarra (relato de duas retalhadas... causticadas)

Dias de festa. Dias de luz. A noite transformada em tuba e todos os pés fora do chão. Os violinos tocaram, mas esses nem sequer estavam lá. Apenas corpo e dança e noite por-para caminhar (e quem disse que o dia tem 24 horas, enganou-se).
Eram oito anjos em formato musical. Nós éramos duas e tudo aquilo que sonhávamos ser. Multiplicadas na pauta do coração, seguiamos a luz, deslumbradas!

Porque o movimento era belo e simples.
Porque aquele som -sim, AQUELE SOM!- tem a cadencia da verdade, é belo, arrebatador...


(Nota da retalhada-mor: Ai, tantos anjos juntos!)

20.8.08

beber bagaço

assim, sem nada que me prenda à terra, é mais fácil voar:

conheci poetas, reencontrei almas penadas d rock, jantei em Cabo Verde, bebi licor de mel, mudei de casa, mudei de penteado, mudei de paixões, estive embalada na voz doce dos amigos, falei com desconhecidos como se os conhecesse, chorei muito, ri muito, dormi pouco, bebi muito e quase morri afogada em cerveja,...

(esta lista podia verdadeiramente continuar. não seria difícil. também não tem qualquer tipo de interesse, a não ser a minha vontade de falar destas inúteis e preciosas coisas. fico-me por aqui).

14.8.08

eu sei que incendiaste a tua mão acidentalmente, ao tentar recortar-lhe formatos de asa.
Para que me devolvas o ar, meu amor.
Para que devolvas o espaço que me falta dentro.
Para que recupere a capacidade de incendiar o chão e dormir,
ao lado dele,
sobre ele,
acima dele,
dentro dele.

Sem queimar a pele.

8.8.08

unhas

eram apenas as minhas unhas sujas da tua pele.

ao longe um cântaro de água, que poderia usar para beber ou lavar.

parti o malfadado cântaro com os dentes de um anjo velho e inútil que tinha bocados da minha cara espalhados no rosto (bizarra criatura passeando no dorso do meu cansaço).
persegui a sujidade da noite, com uma esperança de coisa nenhuma, (coisa rara essa de já não me comprometer com nada)


respirei. estavas finalmente morto.
agora sim, posso começar a escrever-te.

2.8.08

...


vim para te dizer que roubei milhares de pássaros à noite.

...


e que eram para ti.

26.7.08

...

Escapaste ileso, meu amor.
Agora guarda a aragem do não dito pelo dito. Contradiz a minha vontade de marcar o teu número na minha pele.
Impede-me de alcançar o teu sorriso. Fecha a boca ao hálito do desejo e deixa que a voragem e o assombro, sejam desejos deslocados, como mãos sujeitas a esforços prolongados.

Cerra-me as pestanas minuciosamente, repetindo a cada segundo a fuga, até me veres morta de cansaços.
É um desassossego, viver com tanto amor nos olhos…
Vira as páginas do meu cabelo, acelera o compasso da melodia que celebra os teus regressos.
Essa melodia é um engano, meu amor.

Não dês importância ao tamanho absurdo das minhas palavras, para que eu esqueça a proporção dos afectos.

O amor lateja nas pálpebras.
O amor lateja nas pálpebras.
O amor lateja nas pálpebras.


…Deixa-me ir mesmo quando regresso.

23.7.08

COMO UM ROMÃ-CE ou Penélope, a história de um fenómeno meteorologico

Penélope, tinha um nome exótico e um corpo abandonado ao mar. Repetindo o caminho e revendo a paisagem, verificava pormenorizadamente o percurso e as suas falhas.
Nesse trajecto, esquecera muitos nomes, e contava as caras que perdera de vista, variando a ordem de afectos, como quem varia a polpa dos dias.
Penélope corria para longe de si, mas era inútil a fuga, porque vestia-se de melancolia. Penélope respirava mais fundo do que o fundo do mar onde se abandonara, procurando coragem, audácia, secretos alimentos de alma, que pareciam levá-la mais depressa para novos lugares.
Hoje podia ter chorado, mas não chorara. Deixara-se perdida, frente ao sentido obrigatório, que aponta lugar nenhum, fora da carne, fora de si, na extremidade do possível. A mente coberta de fina neblina e frio no interior dos ossos, e frio entre os dentes e frio nos poros da pele e frio na cavidade do coração. Penélope não sabia para onde se dirigia, mas persistia. E era tolo quem lhe encontrava algum acto de bravura, porque estava frágil e só podia partilhar esta verdade, silenciosamente e sozinha.
Mais logo, quando a noite chegar, Penélope pensará mais e o frio será maior. Vai ver uma bela mulher a dançar com os seus fantasmas. Mulheres à beira do desamparo. O que fazemos com isso? Como gastamos isso? Surge vivo o café, muitos cafés, muitas cadeiras, que são miradouros de passagem. E uma vez mais os caminhos, um, dois, três, quatro, muitos. Há caminhos que não se contam, há caminhos que não se cantam. “Há textos que são a transformação de uma vida”, ela lê a frase, repete-a. Estão 19 graus, e ela está num lugar que não quer nomear, porque isso seria situar-se onde ela não está.
Farta de lugares comuns, farta de ideias de lugares, farta de LUGAR, LUGARES, L-U-G-A-R.
Defende-se com memória e projecta no horizonte a vontade repetida. Perdeu a vizinhança, que é como quem diz, ficar dentro de uma casa vazia, com gente dentro. São caixas em cima de caixas. É cinzento e pedra. São braços que faltam aos braços, tudo ao contrário, como num espelho que reflecte o inverso, como num corpo que repele o peso das circunstâncias. Farta de pragmatismos baratos, acredita que o coração pode ter aço dentro e no entanto, para lá de todas as evidências, quebrar-se com o tempo, quebrar-se com o vento.
Só um livro como aquele podia salvar o mundo, leu, mas esse livro não existe. É pena, pensa, mesmo que a salvação seja precária, exija dedicação, esforço, continuidade. Coisa que ainda não sabe se tem dentro, ou, no caso de não ter, como fazer para alcançá-la.

17.7.08

LOVE YOU LIKE THE SUN

I love you like I love the sun in the morning
But I don't think a few words of mine are gonna make you change your mind
I'm gonna spend the day in bed and I'm planning on sleeping my life away
You'd better come right down and do it all over again.
spiritualized

alguma espiritualidade

Spiritualized- Anyway that you want me

If its love that you want
Baby you got it
From the depth of my soul
Baby you got it
I've been watching you
Am I loving you in vain
Girl there's no need to explain
Anyway that you want me
Anyway that you'll take me
Anyway that you'll make me feel a part of you
Anyway at all

If there's dreams in your heart
They'll last forever
from the depth of my soul
I'll make them come true
I've been watching you
Am I loving you in vain
girl there's no need to explain

Anyway that you want me
Anyway that you'll take me
Anyway that you'll make me feel a part of you
Anyway at all

15.7.08

NEGRO- AMARELO

Começar a recordar numa nova casa amarela. O mundo é redondo, mas angular por dentro. Esta descrição é contraditória, engasga-me (mas isso deve ser por causa de um mal físico, que padeço- temporariamente).

A casa perdida num monte, com um amor lá dentro e sementes de girassol. Nessa casa, havia muitos e diversos lugares. Eu vivi lá mais de cem anos, não é nada que se esqueça do dia para a noite!

Perdi muitas coisas. Coisas importantes. Coisas valiosas. Se crescemos por isto, dou por mim mais alta daqui a uns tempos...

E no fundo, tenho sorte, amanhã arrancam-me a garganta e se tiver sorte, pode ser que o Boris Vian me visite, e arranque também o coração.
FIM

10.7.08

CORAÇÃO

O coração sai do corpo para voltar depois a correr para dentro dele. Nessa altura instala-se, soberanamente, por entre os precipícios do medo e quando corre bem, consegue construir um castelo.

O coração é inocente e tem o tamanho de um ovo. Prepara-se sempre para transmutar a pele em pena, anseia um corpo bizarro: quatro braços, ancas duplas e longos dedos.

O coração é pequenino, de uma infância comovedora e cruel. Encontrá-lo dentro do peito, aceso, em longa erupção, é ainda um fascínio, mesmo depois de conhecido o deserto de um co-R-po vazio.

O coração parece quente, quando visto à distância do longe. Conhecendo-lhe a temperatura interior será, escusado falar dos trópicos e dos pólos. Escusado será procurar o calor exacto, que torna comuns os diferentes.

(cont.)

9.7.08

coisas que não se possuem

A casa era minha, na imaginação. Tal como o passeio, o asfalto, os sapatos enfiados no coração, para cruzarem insinuosos caminhos (e um coração deve andar descalço).

As mãos eram minhas, os pulmões eram meus, mas as funções vitais eram outras. Mãos que apanhavam o ar, pulmões que seguravam afectos e bicicletas (que pensando bem nas coisas são a mesma coisa).

A noite era minha, o farol era meu, mas não tinha barco para cruzar as ondas de cabelos por tocar.

(cont.)

25.6.08

13.

YOUR EYES,

THEY TELL ME...

14.

fechas a mão porque te dói agarrar o tempo.

com os dedos cerrados, a duração que é um poema de amor (peter handke) destróis o castelo de cartas por escrever e a memória apaga-se, caprichosamente.

24.6.08

15. "Lá fora é Verão outra vez"

a luz percorre este mundo de lés a lés.

Agora a memória aperta e vai para todos os lados, indistintamente.

Ao mesmo tempo, o desejo de arrumar tudo no lugar certo, esvaziar o armários, rodopiar.



Escrevo-te para dizer que a estação das chuvas acabou, que agora o caminho

20.6.08

há lá muitas iguais a esta

nÃO CANTes esta CaNÇÃO. ElA não vAi ReveLar o NosSO aMOr.
(In Foge, Foge Bandido. Manel Cruz)

Eu gosto muito. Eu gosto tanto. é um livro a cantar lá dentro. Manel Cruz e amigos. Foge, foge bandido

A música tem imagens e caras e vive o ritmo da vida, como um pensamento em contínuo ou um poema muito vivo. Encantador. PENSA EM ALGO BOM.

13.6.08

Intolerável , meu caro amigo

Agora é tarde e deves descansar o dorso do teu silêncio, numa almofada cheia de velhos ácaros.

Encostas-te à janela, mas é indiferente o movimento da luz, porque os olhos ardem, aflitos... ausentes.

De qualquer forma, sabes que vais voltar a tentar. É como subir um elevador para lugar nenhum, disseram-te com escárnio.
Confia em ti, pateta, vinga o peso do teu corpo.
Sem cedências.

(De qualquer forma, o vidro está partido outra vez. O carro cheira a cinza e está sujo. A avó ligou, diz que o gato está doente. Não mia, nem fala.O meu dedo está farto de apontar o norte. Sigo-o ou sigo-te mais logo, quando a lua estiver mais alta do que o meu ego).

9.5.08

Weird Fishes/Arpeggi . Radiohead


In the deepest ocean The bottom of the sea Your eyes They turn me
(myspace.com-radiohead)

Suburbanos - parte 1

"A coisa é outra coisa. Mais esquisita. Maior."
A coisa a que chamam vida, essa que passa depressa e devagar, submissa a insondáveis caprichos, feita de pequenos nichos, pequenos nadas, é outro assunto.
Essa coisa que dá pelo nome de matéria humana, que sou eu, que és tu , aqui, a passear-te por todo o lado, a passear-te dentro de mim, a passar-me despercebida, quando a rua está cheia e eu perco a paciência e fujo para um lugar qualquer dentro de mim, e não importa se são tripas ou coração, ou…
Esse ser, que sou eu, ainda aqui, sentado, sozinho, ao lado de ninguém, sou mais eu do que alguém, algum dia poderá ser. E esse outro ser que és tu, dentro da minha cabeça, ou como disse o Pimenta - TU, DENTRO DA TUA CABEÇA - ou o outro lado de ti quando te olhas ao espelho e observas as irregularidades da tua pele e o lugar mais escondido dos teus olhos.
Este corpo que é um sentido, este corpo que são muitos sentidos. Este corpo que come e que te come, se desejares. Esse homem de apetites, esse homem de apetências, esse homem que talvez te apeteça, sou eu. Sou um homem de deus e do diabo.

25.2.08

.

ele era um homem que passava muito tempo a arrumar as coisas no sítio, a colocar os olhos no lugar do sal, a esfregar as mãos com sabonete de alfazema e a diagnosticar doenças de ocasião.

ponto final

Tulipas e vento


Quando chegares, depois de percorrido o caminho onde hipotecaste o brilho da lua, eu estarei calada, sentada, observando o vento dentro das tulipas.
Vais perguntar-me porque observo, calada e sentada, tulipas e vento. Eu vou dizer-te que desde cedo, procuro belezas raras e morosas.

E que não há nada mais belo e melancólico, do que esperar.

14.2.08

Se tiveres sede...

Se tiveres sede, não bebas rapidamente a paisagem.
Desliza lentamente nos líquidos da tua invenção e deixa que eu te surja sob o mais profundo desejo.
Não teças desilusão no meu capricho, a vida é amarga e nem sempre pedras fazem castelos.
(tudo para que saibas que afinal o capricho é também uma forma de amar)

8.2.08

since I've seen you smile

Well it's been a long time, long time now
since I've seen you smile.
And I'll gamble away my fright.
And I'll gamble away my time.
And in a year, a year or sothis will slip into the sea
Well, it's been a long time, long time now
since I've seen you smile
Sob escuta: Beirut . Nantes

Extremamente simples



Não sei se serei mais feliz.


No máximo será diferente.


No máximo serei diferente.

5º ANDAR


5.2.08

Deslumbramento



Este seria também um poema inventado, se não fosse agora mesmo concreto, legível.


Porque era escuro e denso como uma Primavera trocada, comprada por encomenda a um mercador de enganos. Porque era ágil e movia-se sob os pés, tocando a superfície invisível do poema. Porque era grave, acentuando-se vertiginosamente na pelugem dum hemisfério inventado. Porque sabia de leis, ditando-as suavemente, numa cadeira que construía à medida dos ventos e das marés. Porque às vezes feria a última pele imaginada, o último reduto de vida. Porque às vezes os seus braços eram grandes e dentro deles cabia a onírica cabeça do corpo apaixonado. Porque não tinha pressa de chegar ao fim do amor e ficava muito tempo a observar-lhe o interior dos olhos, como se lhe enaltecesse todas as belezas. Porque dava amor na mesma proporção com que roubava a luz por dentro. Porque o seu peito acolhia sementes novas e guardava-se depois secreto até nova colheita. Porque o seu riso transbordava de cor, mas fazia-se cinzento quando invadido pelas tempestades.

Porque era feroz e deslumbrante.


Restava amá-lo.

14.12.07

nudez

nada do que trazia despido parecia conveniente para receber o deslumbramento de ti, por isso deu-me para inventar:

coloquei asas onde outrora reinavam circulares braços, saqueei a epiderme dum poema exótico e maltratado (para que te crescesse o entusiasmo), coloquei olhos no corpo, para rever de lés a lés os teus segredos e decorar o teu perfil... os poros fechei-os um a um, para que não me soprasse nenhum vento, nenhuma aflição, no interior do corpo.

exigias-me a nudez dos amantes, aquela parte de corpo, que se perde quando se dá. eu gostava de ti ao sol, quando transpiravas luz e queimavas o medo.

deu-te para praticar. com alguma habilidade, rabiscaste no interior do meu coração a palavra AMOR. disseste que nunca a tinhas escrito desta forma, que sempre falhara o pretexto para compor o último tema.

a mim, faltara-me a elocução para levar a preceito a descoberta. por isso dormi sem a tua visita, tive sonhos, tremi.

sem temor, como quem sabe segura a palavra escrita, deixaste-me uma pequena morte no sangue, que é como quem diz, nos olhos, nos ouvidos, na boca.

talvez regresses com tinta durável, promessas de permanência. eu acreditarei
.

sobre ausências....

teria dito que o fruto era doce, que as mãos estavam cheias e que nada faltava na paisagem.

teria dito também que tanta satisfação aniquilaria de vez os dedos e com eles os pianos, as melodias por inventar.

teria dito que mesmo assim, era bom comer cerejas frescas, nuns lençóis muito usados (e isso nem sequer pareceria feio...) e deixar a noite suavizar o corpo.

30.11.07

rasgar

disseste que se rasgasse cada um dos meus cabelos, reconstruirias as nuvens e com elas novos cenários.

eu não acreditei, mas por via das dúvidas, sentei-me e executei a morosa tarefa. Demorei muito tempo, lembro-me do sol e da chuva. lembro-me dos dedos muito cansados e muito velhos, rasgando cuidadosamente, cada cabelo. lembro-me de sentir a noite e depois o dia. lembro-me de ter a sensação de ver passar a vida inteira e repetir um a um os meus gestos.

lembro-me também que não chegaste a voltar.

24.10.07

porque hoje o dia tem o teu cheiro

..."falo-te das coisas que amo, para que as ames comigo"... eugénio de andrade
é no ouvido que deves segredar o essencial, no entanto é por dentro do coração que deves espalhar essências raras do corpo- do teu corpo.
partilho contigo este segredo cheio de intimidade, para que seja único e eterno cada momento. para que a casa, seja sempre um lugar possível a cada paragem. para que não estranhemos a decomposição das paisagens, porque o amor é mutável e nós somos eternos no que dele se altera.
e para que fiques muito tempo, mesmo quando te ausentas.

19.9.07

16. sarah kane. hoje. porque sim. CRAVE. O que sera? (a flor da pele). chico buarque

A- E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos, ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa de televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu
e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender por que é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar em quem tu és mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar por que é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira de alguma maneira de alguma maneira transmitir algum do / esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.” Sarah Kane, in Falta (Crave)

Chico Buarque -erá que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

15.9.07

17.

deixa que te agarre pelo braço e vamos ver as ondas dos mares e dos cabelos. deixa que te compre um retrato novo ou pouco usado, como aquele que vimos ontem e gostaste tanto. deixa que te trate pelo nome que

11.9.07

Tratado para a reinvindicação do real


Quero dizer-te que:
os braços, os dedos, os dois cotovelos e a sua pele enrugada, os pelos descolorados, o nariz aquilino e grave, os olhos.


Quero dizer-te que:
as artérias, o sangue, a água da saliva, os rins, o estômago, cheio ou vazio.


Quero dizer-te que:
o batimento cardíaco, o sono trocado, a ansiosa transpiração, o aperto no coração, as dores de ovários.


Quero dizer-te que:
o ideal romântico, a imaginação acesa, a desordem interior, a certeza de continuar, a perturbadora timidez.


São pura e absolutamente reais.

4.9.07

nenúfar na memória breve. hoje ouvi dizer que faria sol, do outro lado da península do desejo. Ouvi dizer que "hoje" é um lugar demorado e tardio

e era noite há muito tempo, ou assim me parecia... tornara-se noite no repente que traz um poema e desfaz as mãos em caruma (qualquer coisa que se queima, qualquer coisa que se incendeia... e a vida volátil, ri-se irónica, por cima dos meus ombros agrestes).
e vai-se a mácula e rasgo as cartas que escrevi dentro da cabeça ou nas paredes do corpo (confundo a anatomia, tenho dormente o cérebro e talvez durma muito, quando passares por completo) . Todo ele - O CORPO- cheio de cartas por abrir, outras por escrever, outras por baralhar... e eu que baralho tudo, que penso saber importantes métodos de salvação, saio à rua e estou vazia, oca.
deixas então o espaço possível, ultrapassas-me os braços e és muito veloz (e eu tenho todos os sustos despertos desde então, porque não voltas a imaginar divãs, nem eu volto a ser diva, ou qualquer coisa de muito humano, muito simples, muito fácil de amar) . Dizes-me que afinal, os poemas são das matérias difíceis, as mais fáceis de desperdiçar. Não ouves o outro lado da voz, mas estás seguro e eu tenho-te inveja e uma incomparável ternura.
Apetece-me balear-te a voz com discursos surpreendentes, comover-te de espanto, ver abundante água a pass(e)ar, comer gelados de chocolate, inventar sopas e chinesas, tocar pianola e folhear-te os olhos.
Hoje apetecia-me que tudo acon- tecesse.

27.8.07

Resoluções definitivas

Não atires a última pedra.
Atira a primeira que vires, e certeira.

Considerações dispersas


- eu volto, como quem regressa a um disco muito antigo, selado numa memória. O caminho não é doce, mas seduz-me a aridez onde escondes o mais brilhante de ti.

- tenho hoje vinte braços à minha volta e faz-me falta um último abraço.

- não me disseram ser simples o teu caminho, não pensei ser fácil o labirinto da tua pele, mas agora que me vejo transformada na supra-projecção do meu delirio e a rua fica fria como gelo, gostava de voltar atrás e apagar algumas linhas do teu caderno, onde me desenhaste com outro rosto (um rosto que não é o meu).

26.8.07

The Smiths - There is a light that never goes out

Take me out tonight
Where theres music and theres people
And theyre young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please dont drop me home
Because its not my home, its their
Home, and Im welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldnt ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I dont care
I dont care, I dont care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I havent got one, da ...
Oh, I havent got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out

Re - Visitar a Pó - Esia

http://www.aveiro.tv/scid/aveirotv?refID=0|5|386|0

22.8.07

sobre o avesso


o que me ensinaste foi precioso.

ensinaste-me por exemplo que o avesso de qualquer coisa, não é sempre o seu contrário.

que o lado de lá do amor, não é o desamor.


e que por vezes, o avesso não regressa a lado nenhum.

8.8.07

Repetir a cidade - No repeat, baby. No repeat.

Nesse dia demos muitos passeios e ele parou muitas vezes para me contar o que os seus olhos viam. Quase sempre viam coisas que primeiramente eu nem reparava. Achei que deviamos repetir aqueles passeios, mas ele não voltou a aparecer na cidade... OU, a cidade não voltou a aparecer em mim. SIMPLES COMO A CLARIDADE É A COISA MAIS DIFÍCIL DE ENCONTRAR, disse o Mário H. Leiria... e PRATICAR, digo eu em surdina.
(Importante: ler ao som de Beach Boys, "God only Knows" ou Supremes ,"Baby Love" )

Porque é verão... Considerações mínimas e solarengas

os turistas . paco minuesa

- Um turista bonito, nunca vem sozinho.

- Hoje fui actriz em dois filmes... de turista.

Abandono-te agora que a noite cai no interior da pele


5.8.07

alto, muito alto OU o meu projecto é construir-te asas

"Klaus é um homem alto. Conheceu Johana porque ela olhou por cima de uma sebe verdíssima e olhou por cima de uma Primavera ainda mais cverde do que a sebe. Eles costumavam brincar:
Se tu não fosses tão alto, não te teria visto por cima da sebe.
E Klaus dizia a Johana:
Se eu não fosse tão alto, a sebe seria mais baixa."
Gonçalo Tavares in Um homem: Klaus Klump
Enquanto o teu coração ardia na palma das minhas mãos (quente, quente, muito quente), transportavas nos olhos uma luz profundissima, que cegava o deslumbramento. Eu passava horas a mirar-te na minha caixa de brilhos mentais.
Era também de pés enterrados na terra que caminhavas. Eu sabia que era um hábito apreendido e amargo, mas o que eu gostava era de te inventar asas no alto da cabeça, tornar-te aeroplano e voar contigo numa folha de papel ou de alface, tanto faz.
Também eras muito alto. Isso era cómico, porque tropeçavas nas árvores e os pássaros aproveitavam-se de ti, para construirem casas e fomentarem a espécie.
Tu rias da tua des- GRAÇA, desajeitado, com um fato tão comprido que ocupava os teus dez dedos de tecido inútil (sei agora que aqueles longos tecidos onde enredavas os gestos eram apenas para te esconderes do medo, para seres mais corajoso e sagaz, para pensares com mais... muito mais... velocidade). Eu ouvia-te, mas os ramos da atmosfera seduziam-me mais do que as palavras e eu queria escapar-me, volátil, e ensinar-te a voz do vento.
Nada feito, eras feito de bolo de bolacha, sempre com camadas diferentes e dificéis de penetrar. A minha curiosidade vacilava... talvez fosse teu o caminho por entre o arvoredo. Eu fico na montanha ou na planície. Sempre a ver-te, muito acima ou muito abaixo, debaixo dos meus olhos, ou enterrado nas minhas pálpebras., nas linhas da mão ou nas linhas do céu. Eu fico.Observo.
E sim, o meu projecto era construir-te asas.

18. "Estou um pouco no interior do que arde, apagando-me devagar e tenho sede"- daniel faria



29.7.07

um piano para três

Era em comoção que observava o seu movimento circular, metamorfoseada em bola-espelho, na cambeante luz do sol.

Inundava-me um mar muito antigo, lendário, narrado há muito tempo por belos seres marinhos e eu meditava silenciosamente um poema que nunca mais me lembrarei.


Só depois de três lágrimas muito quentes, voltava a sorrir e ela sorria comigo e eramos uma - UNA- extremamente iguais. A oficina desmantelada, quebrava-nos a medula e era triste observar os corpos abandonados, transbordando amor, delicados-deliciados pelo piano inventado a três.


Ele era o outro habitante, quedado na plateia, assemelhava-se ao que de mais belo poderei recordar. Para ele tomei de empréstimo al berto, Nému ,e carinhosamente abracei-lhe o coração.

Um no outro, era na transparência , que inventávamos o movimento, respirando o ar, atravessando os corpos alheios (cont. ....ou não)

27.7.07

I

hoje passeei no dorso do teu delírio pela última vez.

apagaste-me a vocação de amante (i-remediavelmente).

(apesar disso, «algo em mim/caminha/ ao teu encontro» , como disse o alberto...pimenta)

19. Hoje gostava tanto de ter dito coisas que não disse


26.7.07

22.

de

20. "nada se cria, nada se perde, tudo se transforma"

tudo passa, baby... (composição poética sobre a multiplicação das passagens, qual milagre bíblico imaginado. Trata-se de Real-Idade)


- sete caminhos e um barco de vento.
- um campo aberto onde começa o escuro dos sentidos;
- as minhas próprias mãos que pouco pensam;
- amores perfeitos na gola de um casaco;
- a imprevista meteorologia das paixões;
- uma mística ilha de centauros;
- uma língua no sonho da saliva.

"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta

- dez comboios em partida simultânea;
- uma caleidoscópio de pálpebras;
- uma praça e o amor em estado de sítio;
- um imenso salão de baile;
- corpos embriagados a falar de amor;
- uma alegria suspensa na solidão;
- o mundo em brutal compressão;

"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta

- uma grande nuvem de vermes-almas
- filmes de artista
- uma carrinha de três rodas
- um japonês paixonado pela sua namorada virtual;
- o rigoroso inverno de 1927- 1928
- uma mulher sem sombra

"TUDO ISTO PASSA, BABY. TUDO ISTO PASSA..." a. pimenta

"Isto passa. tudo isto passa. tudo isto passa pelos teus olhos. ou: os teus olhos passam.os teus olhos passam por tudo isto, baby" A. Pimenta


Ausente como um tentador sopro


15.7.07

"Como um súbito asfalto que nos subisse ao coração"... frase encontrada, em pleno caminho, alma acesa às dezasseis horas do dia ausente.

yves klein . revolução azul


"que os lagos gelam a partir das margens / e o homem a partir do coração" . Luís Miguel Nava



"Vulcão é a lição de uma errância pelo deserto."


Dezasseis horas de dia incerto. O corpo circula impedindo a circulação do tráfego interno. De poema suspenso no cérebro, procuro o sono (ele escapa-se, escapa-me, ESCARPA-SE sob um planalto feito à medida egotista do pensamento). A hora de visitas prossegue, o espanto é uma benesse. Eu ainda estou por aqui, mãos cheia de violetas e "amarelos malmequeres".


Rematando a viagem em Nava: "E o que acontece em cada uma das suas páginas-jornadas até ao rompimento da luz só pode ser o amor em que "havemos de arder juntos" .



14.7.07

o amor não tem tempo, e dura no que amaste (antónio franco alexandre) .ode às paixões e mágoas instaladas na memória

E este é um poema de amor encomendado de véspera
embrulho-me nele
acordo com a tua boca húmida nos cabelos
não direi que te amo.
António Franco Alexandre

trajecto, elevação, metáfora, metamorfose, alusão esquivo, autêntico, intenso, rude, escavação, amor, abandono, colagem...

55 55 55 55 55 55 55 55

Chagall

Durante horas e dias, ele passeia vagarosamente, dentro de si. À sua velocidade, séculos depois, ela chamaria AMOR.

Ele apreciava a lentidão do pensamento veloz. Saboreá-la, pressentir-lhe os segredos, e depois quedar-se novamente, sentado numa grande cadeira transparente, que ocultava o seu primeiro esqueleto. Ela conhecia-lhe a segunda e a terceira pele, os mil esqueletos, o calor dos seus olhos.


Ele observava o mundo através duma grande janela. Do outro lado do vidro, passeando sob a planicie, a voz dela contava-lhe o que ambos os corações viam:


"Casas contornadas de presenças, gatos e cor. Os gatos brilham muito no escuro, apesar de ser dia. Dentro da rua, as pessoas circulam. Uma criança leva um balão e sorri. Uma mulher chora com muitas lágrimas, mas ninguém se comove. O trânsito aflito segue e segue e segue. Um homem abraça uma mulher, depois segura-lhe a mão. Vai."


Ele comove-se. Depois senta-se novamente na sua grande cadeira.Ela convida-o a passear no seu astro pessoal. Ele vai, sucessivamente, multiplicando o sol. 55 vezes, diriam mais tarde, sorrindo, um ao lado do outro, um dentro do outro, aquáticos e plenos, como o "dia primeiro", o princípio de cada um.








13.7.07

Porque do coração cuida-se e gasta-se... incessantemente.



"deverias não a conhecer e tê-la encontrado em toda a parte ao mesmo tempo, num hotel, numa rua, num comboio, num bar, num livro, num filme, dentro de ti, em ti, ao acaso do teu sexo erguido na noite que procura um lugar onde se meter, onde se libertar do choro que o enche."

Marguerite Duras . Textos Secretos . A doença da morte

12.7.07

"Acordamos, já sei, transparentes e sábios, do outro lado da criação do mundo" . antónio franco alexandre



Estava em Caminha.


É uma terra densa, bela, difícil de respirar.

Caminhava em Caminha (sem caminha nem descanso) e encontrei um lugar de livros, que é a casa onde os livros escolhem habitar, vulgo biblioteca.


Foi em caminha que encontrei al berto e devorei antónio franco alexandre. um e o outro, lado a lado, próximos, colados, escrevendo sobre moradas variadas, na pelee nos oceanos... em silêncio.

Ali, os dois, quietos, comoviam. Eu chorei com todo o silêncio que o sagrado exige (e pensei gritando, com a atmosfera sinistra das minhas células, É ESTE O SILÊNCIO, depois calando-me, vendo os planaltos e a agressividade da alma elevada a poema).

ligeiramente suspenso, pensei:

nunca mais poderei esquecê-lo....

antónio franco alexandre

24. Escrevo a tua morada, mas sei que me egnaongano

"

6.7.07

25.

Era uma casa, como direi..... ABSOLUTA.

So in a manner of speaking... Tuxedomoon em repeat na rádio mental


In a Manner of speaking I just want to say That I could never forget the way You told me everything By saying nothing

In a manner of speaking I don't understand How love in silence becomes reprimand

But the way that i feel about you Is beyond words

O give me the words Give me the words That tell me nothing

O give me the words Give me the words That tell me everything

In a manner of speaking Semantics won't do In this life that we live we live we only make do

And the way that we feel Might have to be sacrified

So in a manner of speaking I just want to say That just like you I should find a way To tell you everything By saying nothing.

O give me the words Give me the words That tell me nothing O give me the words Give me the words Give me the words

5.7.07

Eloquente...

Hoje era um bom dia para não escrever... para não ter escrito....

Sobre as coisas puras... nada a dizer, agora que se desvanecem

No decote do oceano, bordei três pedras de sal... efémeras e graciosas pedras como o peito de um amante voluptuoso.
sempre te faltou a eficácia. apesar de forte e autêntico. não sei como explicar-te esta contradição, que afinal parece nada dizer. devo ter falhado os preliminares...
quanto aos preliminares, mais tarde falaremos, porque agora é tarde e o poder das coisas puras desvanece-se...

...


por vezes o texto morre. a palavra morre.

Inacabado

Sentei-me ao lado do teu sorriso, no lugar onde prometeras repetir o amor. Eu, que sempre usara Vinicius na cabeça e nas ondas do cabelo, penteei-me vagarosamente antes de sair da casca do lar, onde miava um gato branco e azul. Procurava-me bela,mirando o corpo ao espelho.
Troquei os primeiros caracóis de cabelo, pelos últimos, calcei ... (cont.)

"na casa de julho e agosto"- viagem extra sensível de Gabriela Llansol


"Sempre me senti paisagem"


"Quanto mais a criança se mexe, impetuosa de movimento interior, sob o choque matinal da exterioridade infinita, mais o seu passo é certeiro e inadequado o seu pensamento. É o momento perigoso de saber. VAMOS CORRER, diz ela. Era tudo o que eu queria ouvir. Eu, paisagem, e ela, criança. e lançamo-nos, lado a lado, numa correria através dos raios luminosos que abrilhantam essa manhã tão dada. Opera-se em nós uma reacçã química, rápida e violenta, acompanhada de grande elevação das imagens. Àquela altura só pode vir do futuro dos tempos. A atmosfera entra-nos pelos poros."


"De livre vontade abandonei a casa com Coração de Urso com meu filho ao colo, indo pelos campos; a casa abria sobre uma enorme cosmogonia que não poderei deixar de relembrar."


"Há infinitos no ínfimo de cada escala. Há um dom poético poderosíssimo à espera em cada centelha de consciência."

4.7.07

21.

hoje, antes de adormeceres, soprei-te nas pestanas.

26. E porque é tem toda a beleza que os dias quentes e frios

Canto de Ossanha . Vinicius de Moraes

O homem que diz "dou" não dá

Porque quem dá mesmo não diz

O homem que diz "vou" não vai

Porque quando foi já não quis

O homem que diz "sou" não é

Porque quem é mesmo é "não sou"

O homem que diz "tô" não tá

Porque ninguém tá quando quer

Coitado do homem que cai

No canto de Ossanha, traidor

Coitado do homem que vai

Atrás de mandinga de amor

Vai, vai, vai, vai, não vou

Vai, vai, vai, vai, não vou

Vai, vai, vai, vai, não vou

Vai, vai, vai, vai, não vou

Que eu não sou ninguém de ir

Em conversa de esquecer

A tristeza de um amor que passou

Não, eu só vou se for pra ver

Uma estrela aparecer

Na manhã de um novo amor

Amigo sinhô, saravá

Xangô me mandou lhe dizer

Se é canto de Ossanha, não vá

Que muito vai se arrepender
Pergunte pro seu Orixá

O amor só é bom se doer

Pergunte pro seu Orixá

O amor só é bom se doer

Pergunte pro seu Orixá

O amor só é bom se doer

Pergunte pro seu Orixá

O amor só é bom se doer

Vai, vai, vai, vai, amar

Vai, vai, vai, sofrerVai, vai, vai, vai, chorar

Vai, vai, vai, dizer

Que eu não sou ninguém de ir

Em conversa de esquecer

A tristeza de um amor que passou

Não, eu só vou se for pra ver

Uma estrela aparecer

Na manhã de um novo amor

a verdade é que está demasiado calor para se ter frio..


Trata-se de um coração que voou...


2.7.07

Multiplicando a espera


Relógio perdido no fundo do pulso, entre artéria e artéria. Ele- o relógio- permance, palpitante... espera-te. O meu relógio espera-te e os dias de espera já passaram todos e voltam a repetir-se.


O meu relógio, afinal é de osso, tem esqueleto. Quando ontem, deitado na cama, embrulhado num lençol amendoado, perguntaste, porque esperava, eu não te disse nada. Não se espera um morto, segredaste, pousando agora o corpo pequeno e pálido na tua alcofa de menino.

Só quando sumiste do campo esverdeado dos meus olhos (num verde agora mesmo inventado), respondi-te à letra, na letra certa que se poderia cantar, se eu tivesse a voz ou a guitarra:

Estou ainda à procura de violetas num prado dourado. Foi o Herberto que as evocou - as VIOLETAS- e eu nunca duvidei que elas- as Violetas- existissem. À espera.



29.6.07

E no FIM disto tudo, um azul de prata.... Biografia de amor


"Song to the Siren" by This Mortal Coil . Did I dream you dreamed about me? Were you here when I was full sail? Now my foolish boat is leaning, broken love lost on your rocks. For you sang, "Touch me not, touch me not, come back tomorrow. "Oh my heart, oh my heart shies from the sorrow. I'm as puzzled as a newborn child. I'm as riddled as the tide. Should I stand amid the breakers? Or shall I lie with death my bride?
Hear me sing: "Swim to me, swim to me, let me enfold you"Here I am. Here I am, waiting to hold you."

Nasci em 1979. Tenho quase 28 anos. Casei-me em 1952, um ano depois de teres partido irremediavelmente para o mundo dos mortos. Não foi por acaso que te escolhi para casar. Escrito na pele, o teu nome era uma companhia... uma campainha também, à qual poderia aceder à velocidade-segundo-desejo do pássaro que me despertaras.

Não te vi passar na rua e no entanto, eras o rapaz mais bonito que eu já vira passar! Nem bebemos vinho ao entardecer, nem enlouquecemos de amor numa cama de hotel.
Para ti eu não era uma rapariga. Nem um rapaz. E nem sequer precisava. Isso era belo.

Um estranho nada-tudo-tudo-nada, muita coisa para caber numa palavra ou num papel.

Por isso casamos. Anos antes de ter nascido, no ano seguinte à tua partida: António Maria Lisboa.

(Casaste muitas vezes depois do nosso enlace. Não importa. A verdade é que sempre foste fácil de amar. E belo. Meu nunca-sempre, António)