Os pássaros chegaram-me através das tuas mãos. Depois atando-os às minhas omoplatas, percebi da tua angústia: desnivelara-te os voos, porque os pássaros levitam em redes próprias e pescam mediante os ímpetos.
A primeira vez que gritaste, encolhi para dentro. Tive medo. Mais medo de te perder do que dos sonantes gritos. Percebi o quão estranha era a valsa que dançava. Na violência o que mais arde, o que mais dói, são as entranhas. Com alguma exactidão penso: a verdade está algures no indizível. A intimidade é uma casa de escasso acesso e pode facilmente inutilizar qualquer coisa que fora dela se tenha construído, como um leve sorriso matutino ou o apetite para servir o jantar e degustar pedaços de lua. A intimidade é um estado de sombra, o rolo fotográfico numa câmara de memórias a aguardar o líquido certo, a luz ideal - ou a sua ideal ausência - para se revelar imagem. E o amor entre amantes guarda secretos princípios, itinerários de ilhas com domicílio próprio.
De todo o modo, eram as tuas asas que me integravam no mundo dos afectos. Como dizer-to doutra forma? … Do meu juízo feliz fazia-se o teu prejuízo, que era negar-te a identidade, pulsando-te possessivamente na minha víscera central. Tu eras o vermelho do meu coração, a tinta do pincel, a tintura da minha embriaguez. Pintando-te através de mim, num corredor de hospital, numa rua incendiada ou num amorfo jardim, encontrava motivos para persistir.
Ah! Colar os teus calcanhares à parede do meu peito.
Mas os assaltos – principalmente os de almas - devem ser suficientemente discretos, para só muito longamente serem reparados e proceder-se então às buscas, na tentativa quase sempre vã, de resgatar sobras.
Os assaltos são, em profunda análise, formas de recuperar o que é nosso e que por um tramado acaso sideral foi parar a outro corpo.
No entanto, falhou-me o plano, apercebeste-te rapidamente do que eu impiedosamente arrastava do interior da tua pele para a minha escrita: as alucinadas palpitações, o condão de seduzires as marés e fazeres delas colunas de jornal, o íntimo e solitário semblante de pirata.
Caíra-me o disfarce.
O amor tem gumes indefinidos.
Não sei se por reparares nos passos que eu dava – que se autenticavam cada vez mais aos teus - se pelo aroma que te faltava na casa,
…o do bafo vivo do teu respirar. Um bafo inspirador que te movia pelas janelas que se dispunham para ti ou das outras que por mérito da tua radiante imaginação, criavas.
retrocedeste.
Não podias arriscar, por isso preveniste-te e trocaste de letra e de intenção: nunca mais nada se depositou nas caixas que te fizera. O correio aldrabou-me! – pensava , enquanto cantarolava a medo, o ausente dialecto que me proporcionava a quimera. Mas eras tu a dizer-me que não querias ser cão do meu capricho. Escrevias amargo. Andavas amargo. Voavas baixinho. Já quase não te via e passei a despejar metade da garrafa bebida a dois no jardim de narcisos e insectos. E foi aí que ele apareceu.
THIS IS NOT A LOVE SONG.
2.
Não estamos preparados para que alguém seja capaz de nos amar na demência. E tu, com a eterna fidelidade ao teu umbigo, mutilaras-me o estar normal, pacifica, serena. Explico-te: coração pulsante em desequilíbrios, narrativas presas em cubículos cerebrais, dormência ao acordar e demência – sim, demência! – ao comunicar, fosse por nuvens de fumo ingerido ou por lapiseiras pedidas de empréstimo nos cafés do mundo.
Nunca estamos demasiado sós, até ficarmos sós.
A música – se a tivesse agora – que haveria de compor o momento, havia de ter como som de fundo, o poema do Pavese:
“Reabriste a dor.
És vida e a morte.
Sobre a terra nua
passaste leve
como andorinha ou nuvem,
e a torrente do coração
reanimou-se e jorra
e espelha-se no céu
e reflecte as coisas -
e as coisas, no céu e no coração
sofrem e contorcem-se
à tua espera.” (p. 357)
LAST BLUES, TO BE READ SOME DAY
Foi só um flirt e sabias, claro-
Alguém foi ferido há muito tempo.
Cesare Pavese (p. 369)
3.
Não me apaixonei. Nunca mais. Valeu-me a andorinha tatuada no ombro como agoiro de ti, da casa, das asas.
Mas os passeios nas praias do sul, reabilitaram-me os dedos da inércia e pude reencontrar o mistério do mundo, que é o deslumbramento perante a paisagem. Voltei a desejar a distante montanha como casa. O que me agradava naquela quimérica morada era a imensidão, a resistência, o intangível, de resto sabia – por teu condão - onde havia de regressar.
Não menti ao estranho que adoptara para companhia, queria apenas alguém para partilhar uma ou outra visão, para falar alto um pensamento brilhante de momento ou ficar em silêncio, sem angústia. Poder enfim, usufruir livremente da solidão. Era como se aquele ser acalentasse o meu corpo com o vapor do seu sangue quente, resgatando-me do desamparo. Nem te sei dizer doutra forma, mas parece-me que esta extraordinária sensação, é na verdade um dos mais banais sentimentos humanos: temos medo do absoluto abandono. A minha solidão em companhia provocada, e o que dela surgia, era uma forma de me humanizar, de me pacificar.
Ao adormecer, aquela mão revelou a sua intenção. Ao escorregar-me no rosto, violentou-me e pedi-lhe que parasse. Ele parou.
Intocável templo de mim, espécie bizarra de monja, sem lugar para meditar, a não ser o esplendoroso palco do mundo.
LA VOYAGE DE SAHAR_ Halfaouine
Por isso, passei a viajar para tranquilizar as ânsias, o estranho a quem prometera uma história, ficou lá e o tumulto não me visitou.
Às vezes, bastava-me andar 50 metros para me sentir estrangeira e entregar-me depois a essa doce sensação. O anonimato é possível e cada vez mais – acredito – uma questão de atitude. A demência afasta, é um estado de raríssima lucidez, mas que falha aquando a convivência social. Nessas alturas só permanece perto, quem por karma consegue ainda amar um doido.
As narrativas rebolavam-me e tornavam-se cada vez mais independentes das minhas referências. Ao regressar – sempre com pressa para partir – notava o meu discurso cada vez mais disfuncional. Eu queria falar do cheiro da noite, do esgotar da última gota de atenção e da queda no sono na companhia das areias e dos seres marinhos. Estava em sintonia com o movimento do mundo e tu, à tua maneira, também.
FIND THE RHYTHM OF YOUR LOVE. Antony and the johnsons
Regressei num dia tomado ao acaso à minha vontade. O capricho valeu-me uma semana de paz. Arrumei imagens que mais tarde retomaria para serem diário atrasado duma existência em passagem, limpei vidros e janelas e mesas e camas e renovei a cor da luz interior. Busquei para o dia a intensidade e dei à noite a penumbra merecida para poder repousar. Escutei o Neil Young num vynil que não me ofereceste, mas que por tua causa comprei. Quase sempre a mesma música em repeat e depois algumas boas surpresas. Quando voltei a sair de casa, toda a gente sabia do sucedido, mas nem por isso censuraram a minha perda - de ti, do emprego, do juízo – o juízo de um é sempre o prejuízo de outro. Diziam-me que estava mais bonita, mais serena e eu sorria. As andorinhas lá fora anunciam a chegada da primavera e o entardecer.
E eu, aqui dentro também.
Arvo Part, Keith Jarret. Tabula Rasa

adoro. Muito.
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